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Oiapoque – 16º Dia – Belém

Acordamos bem cedo, para um dos dias mais longos da viagem, e um dos melhores! Esse seria um daqueles dias em que vemos que não é preciso ter medo de viajar: onde houver um viajante em necessidade, haverá alguém disposto a ajudá-lo!

O barco tinha previsão de chegar a Belém às 8h da manhã. Nosso planejamento era desembarcar e ir direto ao encontro do Zé Carlos, o companheiro que encontramos em Macapá e Oiapoque. Como ele morava em Belém, o Haroldo combinou de enviar a nova bomba de gasolina para a casa dele. De lá, iríamos para uma concessionária Yamaha trocar óleo e filtro da XT e da Dragstar, além de fazer a troca da bomba.

Chegamos, atracamos, desembarcamos. O trabalho de desembarcar as motos e montar as bagagens no sol escaldante ainda era difícil, mas pelo menos dessa vez não estávamos em uma frigideira gigante como em Macapá. Ligamos para o Zé Carlos, que combinou de nos encontrar próximo a um mercado de peixes.

Zé Carlos não tarda a aparecer e, além de entregar o pacote dos correios com a bomba de gasolina do Haroldo, se oferece para nos levar a uma concessionária Yamaha. O seguimos, e lá, enquanto dávamos entrada nos serviços, trocamos uma ideia com ele, e ouvimos um pouco de sua história.

O homem era Beolzontino como nós, mas morava em Belém há alguns anos já. Era sócio de uma empresa que abriu uma filial em Belém, e assumiu as operações no norte. Coincidência ou não, nesse exato dia que encontramos, haveria um churrasco de despedida para o Zé Carlos: ele estava de malas prontas para voltar a BH. Iria deixar a filial, agora já autônoma, nas mãos de um gerente, e voltaria para sua cidade natal com missão cumprida. O churrasco era uma homenagem dos funcionários para o empresário, que era querido entre eles. Obviamente o Zé nos convidou para o churrasco, disse para ficarmos em Belém um dia, que poderíamos ficar na casa dele. Como era muito cedo e não queríamos perder o dia de viagem, agradecemos muito, mas preferimos recusar. Iríamos arrumar as motos e partir o mais rápido possível para o sul.

Porém, como em tantas outras ocasiões, Murphy antecedeu em nosso destino mais uma vez. Ele só não devia saber que o resultado seria um dia incrível de hospitalidade do norte.

Na oficina, as coisas não estavam muito boas. Não me recordo bem, mas o serviço da troca da bomba do Haroldo não poderia ser feito lá, não me recordo se por preço, tempo ou falta de capacidade dos caras. Acabou que só trocaram óleo e filtro por lá. A gente deveria ter saído da concessionária assim, quase do mesmo jeito que entrou, só que o espertão aqui resolveu dar uma conferida na Buell.

A Buell tem um parafuso crítico que segura o sub-chassi da moto no chassi. Esse parafuso tem um defeito crônico e quebra de tempos em tempos.  Aproveitei o tempo livre e fui conferir o dito cujo. Apesar de não estar quebrado, parecia estar empenado, pronto pra quebrar. Nada melhor do que retirá-lo e colocar um novo… eu só não contava com o fato de que, ao tentar retirá-lo, devido ao empeno, ele quebrou… metade pra fora, metade pra dentro!

Agora sim tínhamos um problema. Era possível andar com a Buell sem esse parafuso, só não podia fazer isso por milhares de quilômetros, correndo o risco de quebrar os demais por esforço excessivo. A bomba do Haroldo também não havia sido instalada. Solução… ligamos para o Zé Carlos! Precisávamos de um local pra trabalhar, para retirar a metade do parafuso que ficou na Buell e instalar a bomba de gasolina da Dragstar, e ele disse para que fôssemos à casa onde estava acontecendo o tal churrasco, que poderíamos usar a garagem. Antes disso, era preciso conseguir um parafuso allen com medidas em polegadas… rodei por quase uma hora em Belém, debaixo de sol, fazendo 40 graus na sombra, no meio do trânsito, pulando de loja em loja atrás do maldito parafuso. Quando finalmente encontrado, voltei para a concessionária, onde encontrei com o Rui e o Haroldo já com as motos prontas para sair depois da troca de óleo. Partimos em direção ao endereço que o Zé Carlos nos passou.

Chegamos em uma casa simples, alugada especificamente para o evento, em uma vizinhança igualmente simples. Batemos na porta, e uma pessoa nos atendeu. Já estava avisado da nossa vinda e nos deixou entrar. Entramos, e vimos ao fundo uma festa acontecendo: churrasco, cerveja e gente animada. Zé Carlos prontamente nos apresentou como “meus amigos de Belo Horizonte”, como se fizesse anos que nos conhecesse. Rapidamente nos entrosamos. Havia algumas duchas no local, e insistiram para que fôssemos tomar um banho frio pra dar uma aliviada no calor. Tomamos a ducha, almoçamos, tomamos cerveja. Nos fizeram ficar a vontade.

A casa onde ocorria a festa, ao fundo.

A casa onde ocorria a festa, ao fundo.

Depois da recepção, era de hora de trabalhar! Haroldo e Rui foram desmontando a Drag, e o Zé Carlos me levou em uma loja de ferramentas. Eu precisava comprar broca para usar no parafuso. O processo de retirar um parafuso preso envolve fazer um furo no meio dele, e logo em seguida usar um outro parafuso para retirá-lo, ou usar um extrator de parafuso, que nada mais é do que uma peça cônica com uma rosca invertida. Comprei um pequeno kit de brocas comuns.

Enquanto eu comprava ferramentas, Haroldo desmontava a Drag!

Enquanto eu comprava ferramentas, Haroldo desmontava a Drag!

Nesse meio tempo, conversando com o Zé Carlos no trajeto, descobri uma daquelas surpresas que as coincidências da vida gostam de nos revelar. Falando de viagens e motos, descubro que o Zé Carlos havia passado, de moto, por nada menos que 47 países diferentes! Era companheiro recorrente do Rodrigo Fiúza, aventureiro da paz que faz inúmeras expedições pelo mundo, e de acordo com ele boa parte das fotos do Fiúza eram de autoria dele. Imediatamente virei fã de carteirinha do homem! Como pode o Brasil ser tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno, para proporcionar um encontro desses.

Voltando ao churrasco, mostrei minhas compras pro Rui, que imediatamente desaprovou as brocas. Achava que não iriam aguentar furar o parafuso. Estava inteiramente certo. As primeiras tentativas foram bastante frustrantes: usando uma furadeira emprestada pelos nossos anfitriões, as brocas se desgastavam e quebravam. Anfitriões, inclusive, que faziam questão de aparecer de tempos em tempos na garagem para verificar se precisávamos de alguma coisa, fosse comida, bebida ou qualquer outro tipo de ajuda.

As broas iam quebrando uma a uma...

As brocas iam quebrando uma a uma…

Depois de algumas tentativas, percebemos que as brocas realmente não serviriam. Nesse meio tempo a Drag estava montada e com sua nova bomba de gasolina funcionando. Para testá-la, nada melhor do que ir novamente na tal loja de ferramentas, antes que fechasse, para comprar brocas adequadas ao serviço (brocas de aço rápido). Fomos eu e o Rui na Drag, e lá comprei a tal broca, além de um kit de extratores de parafuso. Já tinha percebido que era preciso as ferramentas corretas para o serviço.

Tentando furar o maldito parafuso.

Tentando furar o maldito parafuso.

Voltando ao churrasco, conseguimos finalmente furar o parafuso com a broca correta. Logo em seguida, usei o extrator e voilà! Parafuso retirado! Depois das comemorações, bastou colocar o parafuso novo e a Buell estava pronta para continuar a viagem.

Vitória !

Vitória !

Continuamos no lugar e mais ao fim da festa presenciamos uma cena inesquecível. Os funcionários do Zé Carlos se reuniram em uma roda, com ele no meio, e começaram, um a um, a fazer homenagens a ele. Cada um havia preparado um pequeno discurso para o ex-chefe, e pelo que ouvimos, todos estavam sentindo muito sua partida. Foi um momento emocionante, especialmente para o Zé Carlos, que não tardou a mostrar seu agradecimento aos presentes em forma de sinceras lágrimas de alegria. Todos o aplaudiram calorosamente, inclusive nós. Apesar de o conhecermos a pouco tempo, sabíamos que ali estava alguém bastante querido por todos em sua volta, inclusive pelo três viajantes que haviam acabado de receber sua impressionante hospitalidade!

Zé Carlos, o segundo ao fundo da esquerda pra direita, recebendo as homenagens.

Zé Carlos, o segundo ao fundo da esquerda pra direita, recebendo as homenagens.

Passado o emocionante momento, era hora de deixar o lugar, mas não sem antes recebermos um convite de um dos presentes para uma recepção em sua casa! O belemense, que me perdoe não recordo o nome, fazia questão que a festa continuasse em sua humilde residência. Bom, antes disso precisávamos arrumar abrigo para nós e as motos, um convite que veio rápido: ficaríamos no apartamento do Zé Carlos. Saímos da festa e fomos ao apartamento deixar as motos e tomar um banho.

Saímos com o Zé Carlos de carro e fomos experimentar a hospitalidade do nosso próximo anfitrião. Chegamos a uma casa simples e humilde, que nos recebeu imensamente bem! Tomamos da cerveja que havia sobrado do churrasco, conhecemos os familiares do sujeito, comemos peixe, jogamos conversa fora. Por fim, saímos de lá agradecendo muito. Mas a noite ainda não havia terminado.

Experimentando mais uma vez a hospitalidade do norte!

Experimentando mais uma vez a hospitalidade do norte!

O Zé Carlos fez questão de nos levar para conhecer mais da noite de Belém. Fomos a um bairro boêmio, que lembra um pouco da nossa Savassi, com inúmeros bares, a maioria lotados. Era noite de UFC, e esse esporte é febre por lá. Sentamos em um agradável estabelecimento, comemos, bebemos, conversamos muito e assistimos às lutas. Estávamos tão a vontade e tão bem recebidos que o Zé já parecia um amigo nosso de longa data.  Saímos do bar em direção ao apartamento, a fim de descansar para continuar nossa jornada no dia seguinte.

Curtindo UFC na noite de Belém.

Curtindo UFC na noite de Belém.

A maior parte das vezes, quando temos problemas mecânicos e precisamos ficar parados, consideramos que foi um dia “perdido” de viagem. Esse, porém, foi um dos dias que consistem uma exceção a essa regra. Um dia pelo qual valeu cada parafuso, esforço e suor despendidos, que nos permitiu compartilhar nossas histórias e conhecer uma daquelas pessoas que acabam se tornando nossos ídolos pelo resto da vida.

Oiapoque – 15º Dia – Macapá – Belém (barco – parte 2)

Acordamos pro que seria um tranquilo dia. Ficaríamos viajando de barco sobre as águas dos rios amazonenses.

O barco onde estávamos estava com um motor provisório, enquanto o seu oficial estava em manutenção, e por isso a velocidade estava bem baixa. Isso significava que as tradicionais 24 horas de viagem seriam estendidas para 36 horas. A chegada em Belém só se daria no dia seguinte pela manhã.

Quando acordamos, o porão do navio estava sendo carregado com milhares de cabos de vassoura.

O porão do navio estava sendo carregado com milhares de cabos de vassoura.

Acordamos com o barco parado. Ele estava atracado em um pequeno píer onde alguns homens o carregavam com milhares de cabos de vassoura. A ilha onde ele atracava tinha uma produtora de madeira, como tantas que existem por lá.

Depois do demorado carregamento, continuamos no rumo. Durante a tarde, o barco fez outra parada em Breves, que é um dos municípios que compõe a Ilha de Marajó, a famosa ilha dos búfalos localizada na foz do rio Amazonas.

Breves, na Ilha de Marajó

Breves, na Ilha de Marajó

Nesse porto, nos chamou a atenção um imenso Catamarã (navio de dois cascos) da marinha. Estavam atracados pela campanha anti-escalpelamento: na região existem várias ocorrências de mulheres que perdem o couro cabeludo por acidentes envolvendo os motores dos pequenos barcos.

O catamarã da marinha brasileira.

O catamarã da marinha brasileira.

O bichão de frente

O bichão de frente

Com essa campanha, a própria marinha se encarrega de instalar capas protetoras nos motores, para não deixar os eixos expostos. Os longos cabelos enrolam nos eixos dos motores dos barcos e causam tragédias.

Instalando capas protetoras nas partes expostas dos motores

Instalando capas protetoras nas partes expostas dos motores

Partimos de Breves, e a partir daí foi uma tranquila e de alguma forma monótona viagem de barco. Revesávamos nas difíceis tarefas de dormir na rede, almoçar, jantar.

Mais a noite, subimos no terceiro andar do navio, onde ficava o bar, e tomamos algumas cervejas pra animar a noite. Tínhamos comprado uma garrafa de vodca, e ela se tornou nossa companhia noturna. Fim de noite, fomos dormir, ansiosos pela chegada em Belém logo cedo no dia seguinte.

Oiapoque – 14º Dia – Macapá – Belém (barco – parte 1)

Acordamos, tomamos café e arrumamos as motos. Enquanto aguardávamos que todos fizessem o acerto no hotel, as motos estavam paradas logo à frente, no que reparamos em algo inusitado…

A esse ponto da aventura, achávamos que não havia nada que não soubéssemos sobre o calor do norte. Mas, pra nossa surpresa, o asfalto simplesmente cedeu onde os descansos das motos pegaram no chão!

O calor escaldante...

O calor escaldante…

... fez o asfalto ceder sob o peso das motos.

… fez o asfalto ceder sob o peso das motos.

Esse fato nos fez o favor de lembrar a dificuldade que tivemos de desembarcar as motos no porto, em cima de uma chapa quente de ferro (também conhecida como balsa). Seria mais uma luta para embarcar tudo de novo.

Eu e o Rui fomos em direção ao porto para arrumarmos nosso transporte de volta a Belém, enquanto o Haroldo partiu para resolver com o Zé Carlos, o companheiro que conhecemos em Macapá, qual seria o esquema para envio da nova bomba de gasolina da DragStar. O Haroldo conseguiu agilizar uma nova bomba, e agora pretendia enviá-la via sedex para a casa do Zé Carlos em Belém. Daria o tempo certo de chegarmos de barco e a bomba chegar pelo correio.

Arrumamos um barco que sairia no mesmo dia, as 18h, e aceitaria as motos. Detalhe que dessa vez era um barco e não um navio, pelo fato de ser feito de madeira. Apesar disso, era maior do que o navio no qual nos hospedamos na viagem de ida. Teríamos que esperar até o fim do dia para embarcar, mas isso tinha um ponto positivo: o sol não estaria a pino e provavelmente a chapa de ferro da balsa não estaria tão quente.

Voltamos todos para nos encontrarmos na orla de Macapá, e aproveitamos para almoçar novamente no Trapiche, o excelente restaurante do dia anterior. Aproveitamos que nossas máquinas estavam fazendo pose pra nós e tiramos algumas fotos.

"Uly", "Té" e "Mô"

As bravas montarias !

Saímos do restaurante, nos despedimos de Macapá e fomos em direção a Santana embarcar. Como previsto, o sol não estava mais a pino e felizmente o calor deu uma “trégua” de leve. Embarcamos as motos, colocamos as malas no camarote e amarramos nossas garimpeiras. Estávamos prontos para a volta pelo rio.

Um arro sendo embarcado no barco de frente pro nosso. Essa balsa onde ele está é a tal chapa de ferro escaldante que tanto nos fez sofrer dias antes.

Um carro sendo embarcado no barco de frente pro nosso. Essa balsa onde ele está é a tal chapa de ferro escaldante que tanto nos fez sofrer dias antes.

Tivemos uma notícia não muito animadora: o barco onde estávamos estava com problemas no motor, e isso significava que teria que fazer um ritmo menor do que o normal. A chegada em Belém estava prevista para só dali a mais dois dias. Nossa vida de marinheiro tinha ganho uma pequena prorrogação.

Pra nossa sorte, esse barco tinha um terceiro andar onde um bar serviria de posto de guarda para nós. Subimos pra lá e curtimos calmamente a despedida de Macapá.

Adeus, terra longínqua!

Adeus, terra longínqua!

Nossa aventura sobre as águas da amazônia se iniciava mais uma vez!

Oiapoque – 13º Dia – Oiapoque – Macapá

Saímos de Oiapoque por volta das 10h. Como já conhecíamos a estrada, esperávamos conseguir chegar em Macapá ainda antes do fim do dia. O único desafio já havia sido superado uma vez: os 200 km de estrada de terra entre Oiapoque e Calçoene.

O asfalto se transforma na estrada de terra que corta tribos indígenas no meio da amazônia.

O asfalto se transforma na estrada de terra que corta tribos indígenas no meio da amazônia.

A volta ia tranquila, o terreno já era relativamente conhecido nosso. As paisagens amazônicas iam passando novamente por nós, deixando aquele ar de lugar virgem e intocado pelo homem.

Mas a nossa viagem não podia continuar assim tão tranquila, afinal, precisamos de histórias pra contar. Em um trecho particularmente enlameado, eu, andando na frente, levanto nas pedaleiras da Buell e luto ferrenhamente para não deixá-la cair, deslizando, freando, acelerando, diminuindo velocidade do jeito que podia… foi quase, mas passei ileso. No que olho pra trás, no entanto, não vejo meus companheiros. Mal sinal. Volto com extrema cautela, e avisto os dois logo após uma descida cheia de lama: a Dragstar atravessada na pista e com lama na lateral.

Notadamente o Haroldo encarou o tombo com muito bom humor!

Notadamente o Haroldo encarou o tombo com muito bom humor!

Totalmente contra a lei ambiental, nosso colega Haroldo compra um terreno bem no meio de terras indígenas. Nada de grave: uma rabeada da drag na terra o joga no chão, mas em baixa velocidade. Mais sujou do que quebrou.

Prejuizos leves

Prejuizos leves

Recuperados do susto, continuamos a viagem, dessa vez com cautela extra e velocidade reduzida. É impressionante o que um pequeno tombo pode fazer em prol da segurança nas estradas!

Chegamos finalmente ao final da estrada de terra, e voltamos ao abençoado asfalto. Alívio para uns, pesar para outros…

Haroldo comemora a volta do asfalto...

Haroldo comemora a volta do asfalto…

... e o Rui se despede da terra!

… e o Rui se despede da terra!

Bom, demos o braço a torcer que nosso companheiro Haroldo foi O cara da vez: encarar 400 km de terra em uma Dragstar, sacolejando, pulando, rabeando, enlameando, definitivamente foi um feito memorável.

400 km de terra numa custom... o cara merece!

400 km de terra numa custom… o cara merece!

Depois da foto do Haroldo, eu e o Rui também registramos nosso estado pós-oiapoque:

O bicho grilo aí era só alegria.

O bicho grilo aí era só alegria.

Eu havia passado ileso dessa vez, mas mal sabia o que me aguardava até o fim da viagem...

Eu havia passado ileso dessa vez, mas mal sabia o que me aguardava até o fim da viagem…

A partir daí a viagem passou a ser bastante tranquila. Na volta, o Rui ainda quis fazer uma homenagem à sua digníssima esposa.

Basta trocar o "LÇ" por "R".

Basta trocar o “LÇ” por “R”.

Continuamos a descida. Como saímos tarde e atrasamos um pouco na estrada de terra, o dia ia se esvaindo. Porém, como eram apenas mais 300 km, decidimos que seria seguro dar uma esticada até Macapá.

No meio do caminho paramos em Tartarugalzinho, uma cidadezinha a beira da estrada, para almoçarmos. Na saída, presenciamos mais uma torrencial chuva amazônica: em menos de 5 minutos só se via água para todos os lados. E 15 minutos depois, sol rachando, como se nada tivesse acontecido.

Mais uma tempestade tropical.

Mais uma tempestade tropical.

Depois da chuva, continuamos o caminho, até finalmente chegar a Macapá já no início da noite. Na entrada da cidade, decidimos parar no Marco Zero, o monumento que marca a linha do Equador.

O Marco Zero. Linha do Equador logo atrás de nós.

O Marco Zero. Linha do Equador logo atrás de nós.

Aproveitamos para relaxar e curtir a sensação de dever cumprido: havíamos ido e voltado do Oiapoque e já estávamos novamente na civilização.

A eterna briga entre o norte e o sul do planeta...

A eterna briga entre o norte e o sul do planeta…

Seguimos nosso caminho e encontramos um hotel em conta para passarmos a noite. Mais tarde, fomos ao encontro do Uri, um integrante do BuellBR que por extrema coincidência estava em Macapá e me ligou para tomarmos uma cerveja na beira da praia!

BuellBR se encontra com PDF-MC

BuellBR se encontra com PDF-MC

Depois da fantástica refeição (restaurante Trapiche, na avenida beira-rio de Macapá), rumamos para o hotel e dormimos tarde, ainda curtindo a sensação de dever cumprido!

Oiapoque estava vencido!

Jalapão que nos aguardasse!

Oiapoque – 12º Dia – Oiapoque – Saint-Georges

Acordamos tarde e saímos pra andar na cidade. Conhecemos algum comércio, achamos uma padaria (onde não tinha pão) e paramos para tomar café.

A cidade de Oiapoque não é lá muito convidativa. Demos mais algumas voltas, e o Rui achou uma papelaria onde comprou um dicionário francês-português. Queria estar treinado para nossa incursão na guiana.

Próximo à hora do almoço, fomos para a beira do rio pegar um barco para ir até a Guiana. Os barcos que fazem a travessia são chamados de catraias, que são barcos pequenos com o fundo chato.

Na catraia. Essa ponte aí no fundo está prontinha para ser usada e vai ligar o Brasil na Guiana Francesa.

Na catraia. Essa ponte aí no fundo está prontinha para ser usada e vai ligar o Brasil na Guiana Francesa.

Postos BR: Para o seu carro e o seu barco!

Postos BR: Para o seu carro e o seu barco!

A medida que íamos nos aproximando do território francês, a apreensão aumentava. A ideia de entrar sem o visto não soava bem, mas como não tínhamos outra opção…

Chegando na frança sul americana. Essa vanzinha aí, que poderia ser da polícia, fez a gente cagar de medo.

Chegando na frança sul americana. Essa vanzinha aí, que poderia ser da polícia, fez a gente cagar de medo.

Desembarcamos em Saint-Georges, ou extra-oficialmente Saint-Georges-de-l’Oyapock. Trata-se de uma minúscula comuna francesa de 3700 habitantes.

Saint-Georges-de-l'Oyapock

Saint-Georges-de-l’Oyapock

Apesar do norte do Brasil estar logo ali do outro lado do rio, a diferença entre Saint-Georges e Oiapoque é gritante. Tirando o clima, parecia realmente que estávamos na Europa. Casas no estilo europeu, ruas organizadas e limpas, praças, quiosques, restaurantes, tudo o que era necessário para criar o cenário francês estava presente. Além, é claro, dos habitantes, europeus bem característicos.

"Visitantes"

“Visitantes”

Continuamos andando até achar uma praça que parecia marcar o centro da cidade. Em volta dela se destacavam alguns restaurantes e o que parecia ser a prefeitura.

Um pedaço da França na América do Sul

Um pedaço da França na América do Sul

A todo momento, ficávamos olhando pra todos os lados em busca de sinais da polícia. Tentávamos não fazer cara de estrangeiros, mas num lugar desse tamanho, acho que não adiantava muito.

Imigrantes legais! Pode perguntar por aí, nos somos mó gente boa!

Imigrantes legais! Pode perguntar por aí, nos somos mó gente boa!

Terminado nosso pequeno passeio pela pequena cidade, entramos em um dos restaurantes presentes em volta da praça para almoçar. Enquanto tentávamos descobrir o cardápio, uma situação inusitada: dois policiais entram pela porta. Gelamos na hora… Os policiais foram cumprimentando todo mundo no restaurante, e por fim cumprimentaram a gente. Acenamos com a cabeça e saímos de fininho, passamos do lado do carro da polícia, e rumamos para o outro restaurante. Ufs… um alívio.

Sentamos em uma das mesas e fomos atendidos por um garçom, que trouxe um cardápio. Nesse momento, o Rui sacou seu poderoso dicionário de bolso e foi treinando como fazer o pedido dos pratos em francês. Estávamos em dúvida quanto ao significado de algumas palavras, e mesmo como iríamos pagar, pois a ultima coisa que tínhamos na carteira eram Euros ! Depois de muito treino e suar bastante o cérebro, o Rui chama o garçom, e num francês vagabundo, custa a perguntar: “Podemos pagar com nossos cartões de crédito ?”, no que o garçom responde num bom e claro português brasileiro: “Sim, com certeza !”.

Começamos a rir na hora. O garçom continuou explicando (em português…) que era brasileiro e foi morar na guiana, e que além disso todo garçom entendia português por ali. Pedimos os pratos e continuamos nosso almoço.

Comendo ex-cagô.

Comendo ex-cagô.

Terminamos nossa refeição, pagamos a conta em euro usando cartões de crédito e fomos embora. Mas não sem antes vislumbrar a cara de decepção do Haroldo por não conseguir uma moeda de um euro pra usar na máquina automática de venda de camisinhas que ficava ao lado do banheiro.

Saímos em direção ao rio, para novamente pegar uma catraia para o Brasil. Trajeto tranquilo, e despedimos de Saint-Georges, depois de uma visita tranquila à Europa latina.

Au revoir!

Au revoir!

Voltando para Oiapoque, chegamos bem a tempo de ver a revoada de andorinhas, um espetáculo bastante interessante na cidade: milhares de pássaros pretos sobrevoam a cidade e vão pousar em duas árvores localizadas na avenida central.

Enquanto apreciávamos a impressionante nuvem negra de pássaros, encontramos novamente nossos companheiros de aventuras, Cecy, Bolão e Zé Carlos. Eles perguntaram sobre a nossa ida à guiana, no que se seguiu um diálogo mais ou menos assim:

Eles: “E aí, foram na Guiana?”

Nós: “Fomos, claro. Almoçamos, andamos, tiramos foto, e voltamos. E vocês?”

Eles: “Fomos, claro! Fomos presos, levados pra delegacia, deportados, e voltamos!”

Depois eles explicaram que, assim que botaram o pé em solo francês, apareceu a polícia de fronteira e os abordou. Foram levados pra uma delegacia, onde tiveram que preencher uma série de documentos. Foram colocados em um barco da polícia e levados de volta, com um registro de que não poderiam voltar para a guiana francesa pelos próximos três anos. Mas fora isso, não houve mais nenhum problema.

Fim de tarde, fomos caçar um lugar com internet para nos comunicarmos com o mundo exterior, mas para nossa decepção as duas lan houses que conseguimos encontrar estavam sem internet. No fim das contas conseguimos acessar a partir de uma delas, após o acesso ser restabelecido.

A noite, fomos para um bar encontrar com os Tigres do Asfalto, e terminamos o dia em meio a bons papos de motos e viagens. Fomos dormir tarde da noite, sem pressa e sem horário, curtindo numa boa o clima de companheirismo que havia se instalado ali em nossa mesa, junto aos nossos novos amigos. Afinal, é sempre bom estar com algumas daquelas poucas pessoas que, como nós, entendem porque é preciso viajar… de moto!

Oiapoque – 11º Dia – Amapá – Oiapoque

Acordamos, tomamos café e saímos lá pelas 10h. Já havia voltado a eletricidade na cidade desde a noite anterior, e por isso pudemos abastecer antes de sair para o ponto alto de nossa viagem.

Ida tranquila de Amapá a Calçoene, última cidade do trajeto onde chega o asfalto. A partir dali, seriam 200 km de terra até Oiapoque. Naquele ponto, já estávamos mais tranquilos quanto ao trecho, pois o caminhoneiro italiano que encontramos no dia anterior havia nos tranquilizado dizendo que a estrada estava “boa”, já que estávamos no verão, estação na qual chove todo dia (no inverno chove o dia todo).

Paramos em um posto na beira da estrada logo antes do início da estrada de terra. Lá, abastecemos as motos e os galões, e fomos a um barraco que fazia vezes de lanchonete para comprar água. E para nossa sorte, lá conhecemos uma pessoa notável, como tantas vezes já ocorreu em nossas andanças. É um fato que, se algumas pessoas nos acham “loucos aventureiros” por fazermos essas viagens de moto, nós não chegamos nem perto dos verdadeiros andarilhos que existem por aí nesse mundo. Já encontramos vários desses espalhados por essas estradas, e esse era mais um que merecia aplausos.

Entramos na pequena lanchonete, onde fomos atendidos por um balconista barbudo. De início não notamos nada de incomum. Percebemos uma bicicleta encostada ao lado do barraco, que chamava atenção por possuir grandes alforges de moto afivelados a ela, mais uma bagagem presa à frente, e uma bandeira do Brasil. Um pouco de curiosidade e o balconista veio a nosso encontro. Disse que a bicicleta era dele e iniciou uma história digna de recordes, literalmente.

Uma bicicleta, um ciclista, e o resto do mundo.

Uma bicicleta, um ciclista, e o resto do mundo.

O nome do cidadão era Juarez. Era um carioca que vivia rodando o mundo de bicicleta, literalmente. Havia 12 anos que o sujeito estava andando com sua bike, já havia atravessado vários países da América Latina e estava subindo em direção ao Oiapoque para entrar na Guiana Francesa e continuar sua viagem. Estava ali naquela lanchonete para ganhar uns trocados para sobreviver mais alguns dias, comprar pneus novos e poder continuar suas pedaladas.

Mas a história não acaba por aí. O humilde Juarez era ambicioso: seu projeto era entrar para o Guiness como a pessoa que mais conheceu cidades no mundo. Para isso, carregava nos alforges de sua bicicleta grossas pastas com documentos comprovando cada cidade por onde havia passado. Já eram mais de 4000. Claro que não pudemos ficar de fora dessa incrível aventura: arrumamos papel e caneta e demos ao Juarez nossa colaboração para seus registros.

Rumo ao Guinness, com o nosso apoio.

Rumo ao Guinness, com o nosso apoio.

Além dessa simbólica participação, também colaboramos com o caixa do amigo aventureiro. Cada um de nós sacou 50 reais e entregou, o que fez com que ele fizesse aquela cara de “tirei a sorte grande”. Nosso presente parece que foi bem útil: na volta do Oiapoque, Juarez já não se encontrava mais no bar, sinal que já havia continuado suas andanças.

Por curiosidade, pesquisei sobre ele enquanto escrevia esse post, e constatei que continua com suas aventuras ciclísticas pelo mundo: http://www.cidadeverde.com/ciclista-que-viajou-todo-o-brasil-esta-em-teresina-ate-esta-terca-101666

Nossa histórica despedida do homem que mais conhecerá cidades no mundo.

Nossa histórica despedida do homem que mais conhecerá cidades no mundo.

Saímos do posto e iniciamos nossa jornada pela até então temida estrada Calçoene – Oiapoque. Realmente estava melhor que esperávamos. Novamente o Rui estava em seu terreno preferido, e demonstrava isso com largas esticadas na XT. Eu me virava bem com a Buell, e o Haroldo, surpreendentemente, fazia a Drag Star comer terra (no bom sentido) com um rendimento surpreendente para uma custom. Tá certo que em alguns buracos o Haroldo era jogado do banco com a pancada, mas no geral estava indo muito bem.

Mesma foto, outra estrada.

Mesma foto, outra estrada.

Paramos para um almoço em uma vila a beira da estrada. Seria o último ponto de civilização moderna até a cidade de Oiapoque. Dali pra frente, com exceção da própria estrada, tudo o que se via pertencia a reservas indígenas. De fato, foi possível avistar ocas e outras pequenas construções de madeira em alguns pontos.

A XT tava em casa...

A XT tava em casa…

... e a Drag, no inferno !

… e a Drag, no inferno !

E a estrada começava a trazer algumas surpresas. Alguns trechos em reforma e outros particularmente molhados deixavam o chão liso e escorregadio, o que nos fez seguir com cautela. Felizmente, ninguém havia comprado terreno por ali. Ainda…

Em compensação, pudemos ver algumas legítimas paisagens amazônicas de tirar o fôlego.

Isso me lembra LOST.

Isso me lembra LOST.

Também era possível avistar placas não muito amigáveis, colocadas ali para proteger nossos amigos indígenas.

Rui: "Num programão de indio desse, a gente ta autorizado !"

Rui: “Num programão de indio desse, a gente ta autorizado !”

Continuando o caminho, pegamos uma das famosas chuvas torrenciais amazônicas. A estrada molhou bastante e foi ficando cada vez mais escorregadia, e resolvemos parar para esperar a chuva dar uma aliviada. Como não havia outra opção, paramos em uma tribo indígena.

Pedindo abrigo aos indígenas.

Pedindo abrigo aos indígenas.

Na verdade nós paramos em uma escola infantil para índios. Depois de nos abrigarmos debaixo das palhas de uma “sala de aula”, vimos os nativos nos olhando da casa em frente. Um pouco apreensivos, conversamos com eles e pra nosso alívio eram bem amistosos e pudemos contar com sua hospitalidade.

O cara tava adorando tomar chuva. Vai gostar de ser índio assim.

O cara tava adorando tomar chuva. Vai gostar de ser índio assim.

A chuva não demorou muito a passar, como sempre são as chuvas dessa época do ano. Despedimos dos nossos anfitriões e seguimos viagem.

Os primeiros brasileiros.

Os primeiros brasileiros.

Seguimos viagem e fomos parando mais algumas vezes para fotos. Em uma dessas paradas, reparei que havia algo faltando na moto do Haroldo… faltava assim um certo pacote preto na frente de sua moto… O cara me sai da tribo onde estávamos e esquece a mala de tanque da moto dele, onde dentro havia nada menos que um iPad. Sim, a mala de tanque, que vai ali, bem na frente dele. Eu diria que foi uma bela forma de colaborar com a alfabetização dos indiozinhos.

Numa dessas paradas para fotos, percebemos a falta do iPad, e corremos para salvar os índios de um processo por copyright.

Numa dessas paradas para fotos, percebemos a falta do iPad, e corremos para salvar os índios de um processo por copyright.

Como ali naquele ambiente o Rui é quem estava em casa, ele voltou para buscar o iPad, enquanto eu e Haroldo seguíamos. Fomos adiante e, para nossa surpresa, chegamos no asfalto! Havia asfalto no final da estrada para Oiapoque. Paramos e esperamos o Rui, que nos alcançou minutos depois. Continuamos em direção ao fim do Brasil (ou início, dependendo do ponto de vista).

CHEGAMOS! Finalmente! Quase 4000 km depois, chegamos ao destino máximo da nossa aventura. Depois de muito chão, asfalto, terra, calor, umidade, chuva, terra e água, estávamos ali, no extremo norte do país, 500 km acima da linha do Equador. Era uma alegria só. Mais um desafio superado, mais uma conquista.

Oiapoque! Somos Nozes!

Oiapoque! Somos Nozes!

Seguimos para o centro da cidade. No caminho, paramos na unidade da polícia federal de Oiapoque. Queríamos saber se existia a possibilidade de entrarmos na Guiana Francesa. Antes da viagem, pesquisamos sobre a guiana e descobrimos que, ao contrário da própria França, entrar na Guiana era exigia uma burocracia gigantesca. Acabamos desistindo de fazer o processo oficial, mas já que estávamos tão perto, fomos procurar por alternativas… na polícia.

O Haroldo se prontificou a falar com seus companheiros de profissão. Fomos atendidos, e chamaram um agente para conversar conosco, agente esse que trabalhava na guiana em conjunto com a polícia de lá e poderia nos informar melhor. Explicamos nossa história, três motociclistas mineiros de belzonte que queriam aproveitar a ida ao Oiapoque para conhecer a guiana francesa, no que se seguiu o dialógo:

PF: “As motos sem chance, deixa elas em um hotel aí. Vocês tem passaporte?”

PDF-MC: “Não.”

PF:”Falam francês?”

PDF-MC: “Não.”

PF:”Então não vai lá não. Vocês vão caçar confusão, ser presos, deportados, não vale a pena.”

Nosso ânimo desabou, seria uma pena não visitar a guiana. Nisso, o Haroldo resolve comentar que era colega de profissão do sujeito…

PF:”Você é polícia?”

Haroldo:”Sou.”

PF:”Deixa eu ver sua carteira.”

Haroldo entrega a carteira para o cara. Ele fica olhando pra ela uns 10 segundos, pensativo, e depois devolve, respondendo:

PF: “Hmm… vai… vai lá. Com essa carteira aí você vai. Se alguém chegar, diz que é policial, que tá de visita, já tá indo embora, e etc.”, e foi nos explicando como dar umas desculpas em francês para nos livrarmos de uma possível abordagem da polícia de fronteira francesa.

Estava resolvido, iríamos para a guiana no dia seguinte. Fomos então procurar um hotel na cidade. Encontramos um onde estavam estacionados em frente alguns carros da polícia de fronteira do Brasil. Parecia um local seguro. Entramos e pedimos um quarto. A recepcionista fez nossas fichas e nos levou para o subsolo.

O marco do início do Brasil.

O marco do início do Brasil.

O quarto era basicamente um calabouço. Um cubículo com três camas apertadas, um banheiro minúsculo e sem janela. Mas, não seria a pior hospedagem onde já dormimos por aí.

Fomos a um restaurante de aparência bacana para jantarmos. Lá, para nossa surpresa, encontramos com o Cecy, mesmo companheiro que conhecemos em Macapá, e mais dois integrantes dos Tigres do Asfalto, Bolão e Zé Carlos. Sentamos na mesma mesa e tivemos umas boas horas de papo de viagens, motos e aventuras. Descobrimos que o Zé Carlos era aventureiro calejado, já tendo viajado de moto em vários países do mundo.

Comentamos sobre a guiana, e eles também tentariam entrar. Iriam logo cedo pela manhã. Nós iríamos tentar depois do almoço, a tarde. Pegamos os contatos deles, e o Zé Carlos, que ainda morava em Belém na época, disse que poderíamos contar com ele caso precisássemos de ajuda durante a volta. O que foi uma grande sorte nossa, como descobrimos depois!

Despedimos dos Tigres do Asfalto e fomos repousar em nosso pequeno calabouço. Iríamos acordar tarde no dia seguinte, ansiosos para sermos imigrantes ilegais.

Oiapoque – 10º Dia – Macapá – Amapá

Bom, antes de mais nada, o título desse post não está errado. Tudo será esclarecido com a leitura.

Acordamos no tal hotel bacana de Macapá, e a primeira coisa que tivemos que fazer foi registrar o estado do nosso quarto.

Vida de motociclista é assim...

Vida de motociclista é assim…

Saímos do quarto, tomamos um farto café da manhã e começamos a arrumação para sair. Nesse meio tempo chamamos atenção de alguns outros hóspedes do hotel. Os primeiros a nos pararem foram turista guiano-franceses… franco-guianenses… guianenses-franceses… gente lá da guiana francesa. Tentamos nos comunicar mas o francês do Rui ainda não estava calibrado o suficiente.

PDF-MC em Macapá - AP

PDF-MC em Macapá – AP

Logo depois um companheiro de Divinópolis no abordou. Como todo motociclista sabe, quando se diz “companheiro” quer dizer que a pessoa também é motociclista. O Cecy era integrante do motoclube Tigres do Asfalto e ficou curioso com as três motos mineiras no estacionamento do hotel. Depois ficou fascinado com nossa história de como queríamos chegar ao Oiapoque em nossas montarias.

Cecy selando nosso encontro com os Tigres do Asfalto (Divinópolis-MG)

Cecy, selando nosso encontro com os Tigres do Asfalto

O Cecy mesmo estava lá com mais 2 amigos, todos motociclistas, mas haviam ido de avião. Estavam aproveitando as últimas semanas do Zé Carlos, um dos 3 companheiros, no Pará: mineiro belo-horizontino que morava em Belém e estava de mudança de volta para sua terra natal. Não conhecemos o Zé Carlos nessa ocasião: ele e o Bolão, o terceiro integrante, não estavam muito bem no dia e não apareceram por lá. Não sabíamos, porém, o quanto ainda agradeceríamos ao Zé Carlos até o fim de nossa viagem.

Rios largos e florestas densas e altas. A amazônia nos abraçava.

Rios largos e florestas densas e altas. A amazônia nos abraçava.

Saída de Macapá em direção ao norte! Sim, ainda haviam caminhos que seguiam nessa direção. Na verdade, apenas uma estrada, e com duas partes bem distintas. Seriam 360 km até o município de Calçoene, onde o asfalto se esgotava, para então mais 200 km de estrada de terra até Oiapoque. A estrada de terra seria o trecho mais difícil da viagem, e como precaução, decidimos deixar um dia inteiro para passar por ela. O objetivo do dia então era Calçoene, distante apenas 360 km de nossa localidade, portanto o dia deveria ser tranquilo. Deveria…

Para o norte, e avante!

Para o norte, e avante!

Nesse trecho da estrada tive uma daquelas sensações que só se tem nessas viagens: aquela apreensão natural que existe com relação às dificuldades que apareceriam no caminho havia passado totalmente. Estávamos agora naquele momento em que é longe demais para voltar atrás, e tarde demais para arrependimentos. Quando se viaja dessa forma, nos desprendemos cada vez mais das preocupações, medos, anseios… Chega um momento em que você está “zen”, independente do que estiver acontecendo ao seu redor, e você sabe que não precisa de mais nada no mundo para estar bem com a vida além de estar vivo. Apelidamos a transição para esse estado mental de “ligar o fod*s”. E funciona. Como funciona. Uma sensação fantástica, por assim dizer.

Faz o jóia aí faz...

Faz o jóia aí faz…

No caminho, pouco depois de uma cidadezinha chamada Porto Grande (que de grande não tinha nada…) a moto do Haroldo pára por falta de combustível. Isso não era de forma alguma um problema: sabíamos da falta da bomba de gasolina e levávamos galões reservas conosco. Eis que paramos para abastecer o Haroldo na beira da estrada, e algo chama a atenção… a lateral da moto estava coberta de manchas de óleo. Um exame rápido e descobrimos o problema.

Cinco dias antes, quando removemos a bomba de gasolina da drag, também tivemos que remendar a tampa do reservatório de óleo do motor: ao retirá-la para conferir o óleo, ela se partiu. Bom, a remenda com super bonder não foi tão boa, e a tampinha havia se partido novamente. Por nossa sorte, o Rui havia previsto que isso poderia acontecer e amarrou a tampinha com um arame no chassi da moto, o que fez com que ela ficasse pendurada ao invés de cair pela estrada.

Nossa opção era voltar para a pequena Porto Grande e arrumarmos uma oficina. Havia um problema: a drag precisava de um substituto da tampa no cárter para poder andar até lá. Começamos a procurar por plásticos, latas, rolhas, garrafas, galhos… galhos!

O Rui, jamais perdendo uma oportunidade de demonstrar seus infinitos poderes gambiarrísticos, saca um canivete e começa a serrar um galho, transformando-o primeiramente em um toco, e, após completada a cirurgia, surgiu o que ficaria conhecido desse dia em diante como: The Lucky Stick.

Realizando o sonho de todo menino de dar uma verdadeira utilidade para seu canivete.

Realizando o sonho de todo menino de dar uma verdadeira utilidade para seu canivete.

Tratava-se de um pequeno toco de madeira que se enroscava no lugar da tampa do cárter (sim, ele fez uma rosca) e na parte de cima era preso por braçadeiras em alças junto ao chassi da moto.

The Lucky Stick. Nas palavras do Rui: "Eu chamo isso de Engenharia de Guerra".

The Lucky Stick. Nas palavras do Rui: “Eu chamo isso de Engenharia de Guerra”.

Tudo pronto, partimos de volta para Porto Grande. O lucky stick não foi o único grande momento do dia. Estávamos prestes a descobrir uma característica peculiar do nosso amigo Haroldo.

Na volta para Porto Grande, o Haroldo estava maneirando bem na moto dele, para manter o motor em baixa rotação. Por isso, ele saiu na frente, enquanto eu e o Rui guardávamos as ferramentas, e logo depois o alcançamos. Quando ia passar por ele, uma cena inusitada: uma de suas luvas estava bem em cima do alforge da moto, sem presilhas nem nada, calmamente repousando lá e esperando ser levada pelo vento. Passei e fiz sinal para ele parar.

Dito e feito: o Haroldo esqueceu suas luvas sobre os alforges, e uma delas já havia caído. Como eu fazia vezes de batedor do grupo desde o primeiro dia, quando voltei um trecho para buscar gasolina, voltei na estrada procurando pela luva, enquanto o Haroldo e o Rui continuaram para Porto Grande. Era um trecho de aproximadamente 10km.

Um pouco de percepção e um pouco de sorte me fizeram achar a luva deixada para trás com uma certa facilidade. Peguei-a no acostamento e voei de volta para alcançar meus companheiros. Os passei quilômetros depois, paramos e entreguei a luva para o Haroldo. Continuamos.

Visão em primeira pessoa da XT.

Visão em primeira pessoa da XT.

Não muito depois, o Rui emparelha comigo e me faz uma pergunta, a qual eu não entendi. Depois de algumas tentativas ele chega realmente perto e grita com toda força: “Você pegou a tampinha???”. Dei de ombros, e corremos para parar o Haroldo. Ele pára e se surpreende com a pergunta: afinal, estávamos voltando justamente para remendar a tampa. Mas, uma busca rápida em sua memória revela que… a última vez que alguém havia visto a tampa do cárter, ela repousava no banco da drag star. E ninguém guardou-a depois disso.

Procuramos e constatamos que sim, a tampa provavelmente havia ficado pra trás. Como teríamos que resolver de um jeito ou de outro, combinamos que o Rui e o Haroldo continuariam para Porto Grande e achariam uma oficina, fosse para remendar a tampa ou para providenciar uma substituta. Eu iria novamente fazer o bate-volta para o ponto onde havíamos parado e tentaria contar novamente com a sorte.

Fui a todo vapor em direção ao local. Consegui reconhecer a estrada, e encontrei a bagunça que deixamos pra trás: galhos cortados, plásticos, latas. Desci da moto, e lá estava ela, ou elas: duas metades da tampa do cárter da drag star. Haviam caído logo ali onde a moto estava parada.

Novamente fiz bom uso do motor da moto para voltar em direção a Porto Grande. Cheguei lá, e Rui e Haroldo já haviam arrumado uma oficina: um borracheiro que consertava pneus e bicicletas. O senhor nos atendeu de prontidão, e fez um belo trabalho juntando as duas metades da tampa, dessa vez usando um parafuso e porca. Haroldo guardou o lucky stick de lembrança. Sábia decisão: tal ferramenta ainda viria a ser útil.

Montamos novamente e partimos. Mas esse era um daqueles dias em que Murphy não iria nos deixar chegar ao nosso destino, por mais que ele ficasse apenas a 360 km do ponto de partida.

Estávamos com um pequeno problema: a gasolina das motos não daria para chegar a Calçoene, e não havia sinal de postos no caminho. Passamos então por um trevo de onde saía uma estrada de terra, para onde apontava uma placa para um lugar chamado… “Amapá”.

Em direção a Amapá-AP.

Em direção a Amapá-AP.

A primeira vista a placa parecia estar errada, afinal estávamos dentro do Amapá, qual o sentido de uma placa para Amapá… pela nossa falta de opção, seguimos em direção ao local para buscar gasolina. Era nossa primeira incursão em uma estrada de terra, e era a hora do Haroldo provar que o treinamento havia dado certo. É, ele já havia botado a drag na terra, antes da viagem, já vislumbrando o que viria pela frente.

Foi um sucesso. O Haroldo se saiu muito bem com a drag na terra. Enquanto isso, o Rui com a XT parecia uma criança do pré-primário na hora do recreio: estava no seu habitat natural.

Chegamos ao município de Amapá. Uma minúscula cidade de 7000 habitantes, que descobrirmos ser o primeiro município do estado. Pelo menos é o que contam os habitantes.

Como daria tempo de abastecer em Amapá e chegar a Calçoene, Murphy teve que interferir em nossa sorte mais uma vez. A cidade inteira estava sem energia, o que significava que nenhum posto poderia nos atender. O Haroldo até mesmo tentou ajuda com a polícia local, mas em vão. As horas passando, e estava decidido, Murphy venceu. Ficaríamos no município, partindo no dia seguinte direto a Oiapoque.

Já tinha sido um dia e tanto para nós, mas as surpresas continuaram. Nos hospedamos em uma pousada, na qual pudemos requisitar um quarto com duas camas e uma rede. Ao sair, fomos abordados por um caminhoneiro que estava por lá, que começou um papo sobre estradas e viagens. O intrigante é que o cidadão era italiano, morador do pequeno município. O simpático senhor ainda brincava: “Aqui todo mundo me conhece, é fácil me achar. Basta perguntar pelo italiano mais bonito de Amapá”, dizia.

Fomos a uma praça local para jantar e terminar o dia. No dia seguinte, seguiríamos para o maior destino de nossa viagem.

Oiapoque – 9º Dia – Santana – Macapá

Acordamos ainda em meio a nossa viagem fluvial. O barco levaria toda a manhã para chegar ao porto de Santana, de onde partiríamos para Macapá, capital do estado do Amapá.

As vilas ribeirinhas ainda eram parte do cenário.

As vilas ribeirinhas ainda eram parte do cenário.

Antes de chegar ao nosso destino ainda pudemos apreciar um efeito digno da grandeza dos rios da região: o momento em que não se consegue ver a outra margem.

Não sei se o sertão vai virar mar, mas esse rio já é um...

Não sei se o sertão vai virar mar, mas esse rio já é um…

Mais algumas horas e finalmente aportamos em Santana. O porto, diferente das ripas de madeira de Belém, era uma balsa atracada aos muros da orla. O calor era de quase 40 graus. Isso significa que estávamos prestes a descer em uma chapa quente, onde deveríamos ainda montar as bagagens nas motos antes de partir. Era literalmente sair do forno pra cair na frigideira, com a diferença que a frigideira estava dentro do forno…

Notem minha incredulidade ao observar a frigideira onde estávamos prestes a pisar...

Notem minha incredulidade ao observar a frigideira onde estávamos prestes a pisar…

Como não havia outro jeito, desembarcamos as motos na balsa, dessa vez sem o vão perigoso, cortesia do nosso porto flutuante que estava sempre nivelado com a saída do navio. Em compensação, começamos rapidamente a torrar com o calor, pés primeiro. Nos apressamos a montar as malas nas motos e, sem conseguir vestir as roupas de proteção, amarramos tudo de qualquer jeito por cima das bagagens, na pressa de sair logo dali. Saímos de camiseta, bermuda e chinelos, torcendo para não termos deixado nada para trás na correria. Na saída do porto, em uma passagem particularmente estreita, a moto do Haroldo dá uma arranhada no escapamento.

Como todo porto, o de Santana era um lugar bem desagradável, com sujeira pra todo lado, ruas malfeitas e becos. Rapidamente achamos uma estrada e seguimos em direção a Macapá. Não importávamos com o fato do sol estar cozinhando nossa pele: o vento aliviava o calor e era tudo que importava no momento.

Mais uma meia hora de estrada e chegamos a Macapá. A cidade agradou à primeira vista. Logo na entrada, avistamos o marco zero, que marca a localização da linha do Equador, apesar de nessa ocasião ainda não sabermos que se tratava disso. Pouco depois um carro nos passa e faz sinal para pararmos.

A primeira parada em Macapá, para uma recepção a la Pirapora.

A primeira parada em Macapá, para uma recepção a la Pirapora.

Paramos. O tal carro era dirigido por um piraporense, que nos parou quando viu a placa da moto do Haroldo. Depois de uma boa prosa, o irmão do sujeito, que também era de Pirapora, nos levou para um hotel bacana e bem localizado. Nesse caminho conhecemos a bonita orla de Macapá.

A bela orla de Macapá.

A bela orla de Macapá.

Macapá nos surpreendeu. É uma cidade bonita e, ao contrário de outras capitais, parece um lugar tranquilo no geral. Com seus 400 mil habitantes, ainda não foi dominada pelo caos das grandes cidades. É a única capital que não possui ligação por rodovias com outras capitais, e também a única cortada pela linha do Equador.

Chegamos ao hotel. Achamos o lugar um pouco caro, mas procurar outras opções ia dar mais trabalho do que qualquer um de nós estava disposto a encarar. Acabamos conseguindo um desconto depois de chorar com o gerente, e ficamos por lá mesmo. Ainda fomos abordados por um compadre de minas, que passava por lá numa Falcon, e por um surdo-mudo que, por incrível que pareça, conversava muito bem.

O hotel em Macapá.

O hotel em Macapá.

Depois do merecido descanso vespertino, fomos atrás dos melhores pratos que existem por aqui: camarão e peixe. Sentamos em um quiosque na orla e apreciamos uma boa cerveja regada a camarão e peixe. Não era tão bom quanto o camarão de Belém, mas dava pro gasto.

Foto "um pouco" desfocada da orla à noite.

Foto “um pouco” desfocada da orla à noite.

Terminamos o dia ali mesmo no quiosque. Depois de satisfeitos com as porções, voltamos ao hotel e fomos ao merecido descanso, depois de sobreviver a mais um dia no calor do norte do Brasil.

Oiapoque – 8º Dia – Belém – Santana

Acordamos com a movimentação de passageiros no navio. Estávamos já atracados em outro porto, onde o navio encheria de gente, e de onde partiríamos em direção ao porto de Santana, cidade ao lado de Macapá. A viagem teria uma duração de mais ou menos 30 horas, portanto chegaríamos em Santana apenas no dia seguinte.

Ficamos impressionados com a quantidade de pessoas que se aglomeravam em redes pelo navio. As fotos falam por si só.

Antes...

Antes…

... e depois.

… e depois.

E como as motos ficaram na multidão.

E como as motos ficaram na multidão.

Finalmente zarpamos de Belém e iniciamos nossa aventura fluvial pela bacia amazônica. A viagem se mostrava muito tranquila, e com tempo livre, fomos fazer contato com outros passageiros e com a tripulação.

E Belém vai ficando pra trás.

E Belém vai ficando pra trás.

O passatempo padrão ali era o dominó. Uma mesinha que ficava logo em frente ao bar do navio servia como centro das jogatinas, onde qualquer interessado podia chegar e entrar na fila. E o jogo era sério, com direito a torcida e tudo. Interessante foi ver a diversidade de jogadores presentes, incluindo nosso amigo Haroldo que não tardou a entrar na disputa.

Na disputa um Paraense, um Piraporense, um Francês e "guianense francês".

Na disputa um Paraense, um Piraporense, um Francês e um “guianense francês”.

Na viagem conhecemos o Emílio, o francês que aparece na foto acima com camisa amarela, mais um dos andarilhos que sempre encontramos nessas andanças. Estava a não-lembro-quantos anos viajando pela América Latina, indo em direção à Guiana Francesa para de lá voltar ao seu país de origem. Pelo português fluente, havia passado um bom tempo no Brasil e estava ali terminando uma grande aventura de sua vida. Além dele, encontramos mais um casal de turistas franceses a caminho de casa.

Ao longo do dia, avistamos diversas comunidades ribeirinhas, que vivem às margens dos rios, sem acesso ao mundo exterior que não seja por água. Um Brasil bem diferente do que estamos habituados, mais um dos muitos “Brasis” que compõem nosso imenso país.

Casas, igrejas, lojas, uma verdadeira nação à beira do rio.

Casas, igrejas, lojas, uma verdadeira nação à beira do rio.

Uma família no seu dia-a-dia

Uma família no seu dia-a-dia

Nativos

E, é claro, barcos para todo lado, a única maneira de se locomover por aqui.

E, é claro, barcos para todo lado, a única maneira de se locomover por aqui.

Esse barco arrastava um bocado de toras de madeira pela água, que estavam amarradas nessas cordas que saem da lateral.

Entre idas e vindas, também fizemos contato com o capitão do navio, que nos ensinou um pouco sobre as cartas marítimas e os instrumentos de navegação. Estávamos aprimorando nossos conhecimentos de marinheiro para além de simplesmente dormir em redes.

Os intrépidos navegadores.

Os intrépidos navegadores.

Ao fim do dia, depois de enfrentar a difícil tarefa de tomar um banho nos chuveiros do navio, disputando espaço com ratos e baratas, fomos ao bar novamente tomar uma cerveja e curtir o outro passatempo local, não tão local assim: ver novela na TV, cortesia da antena parabólica instalada no teto.

Em meio a noite, a luz do navio acaba, por uma falha do gerador, e começamos uma animada cantoria com alguns nativos. Os demais não pareciam muito satisfeitos, mas não ligávamos muito pra isso e o show de calouros (ou de horrores) continuou até a luz voltar e a TV ser ligada novamente.

Fim da novela, fim do dia. Despedimos dos nossos recém adquiridos amigos, nativos e estrangeiros, e fomos ocupar nossas redes. A viagem até Santana ainda duraria toda a manhã do dia seguinte.

Oiapoque – 7º Dia – Belém

Acordamos meio tarde, meio de ressaca. O dia era de folga, então ninguém estava muito preocupado em levantar das redes. A única tarefa que tínhamos era embarcar as motos no navio. Depois seria só conhecer mais um pouco de Belém.

Levantamos e almoçamos no próprio bar do porto, um PF daqueles. Mais um pouco de preguiça curtida, fomos em busca das motos para prepará-las para o embarque.

Bravas montarias se aventurando sobre a água.

Bravas montarias se aventurando sobre a água.

A própria espera para o embarque foi emocionante: a maré mudava muito (e era chamada maré, apesar ser um rio). Tínhamos que esperar a maré subir, para que o convés inferior do navio ficasse alinhado com o cais de madeira. E como essa maré mudava. Durante a noite, a água abaixo do barco sumia e ele ficava com o casco diretamente no fundo do rio.

Sobe, desce, sobe, desce, e chegou a hora de embarcarmos as motos, antes que a maré descesse de novo. Os marinheiros trouxeram o navio o mais próximo possível do cais, usando instrumentos moderníssimos de navegação chamados “braços” e “cordas”. Encostaram o navio, e mesmo assim restava uma boa distância entre o convés e as ripas de madeira, suficiente para uma moto fazer um mergulho em direção ao fundo do rio, num caminho sem volta (pelo menos até que a maré baixasse de novo).

Fizemos uma notável estrutura de madeira entre o convés e o cais, usando tábuas e tocos, tal qual o próprio Niemeyer teria inveja, tão torto que estava. E entramos com as motos, uma a uma. Felizmente, nenhum acidente registado.

A Dragstar acomodada em seu camarote pessoal pelos próximos dois dias.

A Dragstar acomodada em seu camarote pessoal pelos próximos dois dias.

Feito o serviço de alta periculosidade, saímos do porto novamente em direção ao Ver-o-peso, para aproveitar mais do camarão e conhecer um pouco de Belém.

Praça

Praça

Belém é uma cidade interessante. Uma mistura de porto com cidade histórica traz uma visão bem diferente. Modernos shoppings se misturam com construções antigas, avenidas largas com ruas pitorescas, bairros novos e modernos com zonas portuárias.

Barcos

Barcos

Construções antigas

Construções antigas

Terminamos a volta por Belém em um shopping, onde jantamos um bom e velho fast food e abastecemos nossos estoques de material de higiene, fármacos, entre outros. Pegamos um táxi de volta pra “casa”.

Chegando no navio, aproveitei a maré baixa para tentar encontrar uma arruela que eu havia perdido quando retirei os retrovisores da moto para embarcá-la. Nesse momento, à noite, a água havia recuado bastante e o chão abaixo do cais estava à mostra.

Procurando a arruela perdida. De dia a água chega no dobro dessa altura aí.

Procurando a arruela perdida. De dia a água chega no dobro dessa altura aí.

Hora de voltar ao navio e tirar uma soneca até o dia seguinte. O navio sairia de madrugada para ir a outro porto buscar passageiros.

Descanso merecido

Descanso merecido

Fim do dia, fomos para as redes para aguardar o início da nossa aventura fluvial.

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