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Machu Picchu – 7º Dia – Porto Velho (RO) – Rio Branco (AC)

19/05/2011

Acordamos relativamente cedo, para aquele que seria de longe o dia mais marcante da nossa viagem.

Rumamos para a concessionária Suzuki para dar uma olhada num barulho um pouco estranho na minha moto (que era diferente do barulho da buzina que eu descobri no dia anterior). Não era nada muito preocupante, mas como o Vitor ofereceu seus serviços, resolvi aproveitar. Enquanto esperávamos os mecânicos darem uma olhada, Rui e Chaltein saíram para procurar óleo sintético para comprar.

A laminha que pegamos entre Porto Velho e Rio Branco, pouco antes da balsa

Devolvida minha moto (sem resolver o barulhinho) e comprados os óleos, saímos de Porto Velho por volta de meio dia. Esse atraso iria custar muito caro pra nós, como descobrimos horas depois.Vai aí mais uma dica de viagem: sair cedo e NÃO ANDAR A NOITE !

No caminho pra Rio Branco, a estrada começa a se mostrar pior do que o geral, e vemos muitos trechos em obras. Em alguns, a estrada foi literamente enterrada com uma camada de terra, para começar um asfalto completamente novo. Foi o nosso primeiro trecho de terra, e as motos foram batizadas de lama.

A estrada termina no rio !

Logo depois desse trecho de lama, uma surpresa! Uma balsa ! Isso mesmo! Na BR 364, passa um rio e não tem ponte pra atravessar. Todo o trânsito depende de uma balsa que faz a travessia. O curioso é que na travessia é possível ver a Bolívia do lado esquerdo.

Compramos os bilhetes e aguardamos nossa vez de entrar na balsa. Mais um tempo precioso que perdemos, o que junto com o atraso faria com que a noite chegasse uns 130 km antes de Rio Branco.

Embarcados, aguardando a travessia.

Clique aqui para ver o vídeo da balsa

Atravessamos o rio e, depois de mais uns 100km, finalmente chegamos ao Acre ! Sim, ele existe! Obviamente paramos na estrada pra registrar um momento tão importante quanto esse.

Depois de passar pela divisa de estados continuamos em direção ao nosso destino do dia, Rio Branco. Eram mais uns 130 km, a serem percorridos a noite. A estrada não estava lá muito boa, e alguns buracos perigosos apareciam.

Sim, o Acre existe !

Bom, aí começa nossa sina. Fui surpreendido por um buraco e caí em cheio. A roda traseira bateu com um barulho metálico muito alto, e senti na hora que o pneu havia esvaziado. Fui levanto a moto devagar até o acostamento até parar. Já ia pensando nas possibilidades para se reparar um pneu na estrada, usar os kits de reparos que havíamos trazido. Quando desci da moto e olhei o estrago, o desespero foi total: O pneu estava intacto, a roda é que havia quebrado. Isso mesmo, havia um buraco enorme, como se um cachorro tivesse dado uma dentada na lateral da roda. Sentei na beira da estrada e já comecei a pensar na merda que havia acontecido. Pqp, teria que voltar, não chegaria nem a sair do Brasil, que fim de viagem eu iria ter…

Nisso o Rui levanta a possibilidade de soldar a roda em Rio Branco. Ouvindo isso dei uma acalmada e começamos a procurar os pedaços da roda na estrada. Achamos! 2 pedaços mais ou menos do tamanho de um maço de cigarros cada um. Era minha melhor chance de continuar a viagem. Guardei os pedaços na bagagem, e combinamos que eu e o Logan ficaríamos na estrada esperando, e o Rui e o Chaltein iriam pra Rio Branco conseguir um guincho pra rebocar minha moto. Estávamos a uns 40 km de distância da cidade. Detalhes: estava bem frio e não havia o menor sinal de celular. Fiquei com um dos rádios motorola do Chaltein, mas esse rádio na melhor das hipóteses só pegaria uns 10 km de distância. Ou seja, estávamos sem comunicação, a noite e no frio, no meio do Acre!

Como desgraça pouca é bobagem, Murphy resolveu meter o pé na situação (porque o dedo ele já tinha enfiado com tudo!). Passada meia hora da saída dos nossos 2 companheiros, o Rui aparece de volta, sozinho. Ficamos na esperança que eles tivessem encontrado ajuda no meio do caminho. Nada mais longe da realidade. Lembro perfeitamente da frase que ele disse assim que parou do nosso lado: “Cara, o que era um probleminha, virou um problemão! O Chaltein caiu! “.

Essa foi a hora do desespero de verdade. Pelo que Rui falava, o Chaltein tinha caído passando por uma rotatória 10km a frente, tinha batido forte com a cabeça e quebrado o braço. Depois da queda ficou desacordado por alguns minutos, e acordou meio grogue, zonzo, sem saber direito o que se passava. Passado o choque da notícia, o Logan foi junto com o Rui ajudar a socorrer o Chaltein, que nesse momento tinha outras pessoas cuidando dele que haviam parado pra ajudar. Eu ficaria na estrada esperando que eles voltassem com um guincho, depois de resolver o problema do Chaltein. Seria uma longa espera.

As horas iam passando e eu ficava a beira da estrada, esperando em vão por notícias que não chegariam tão cedo. O frio aumentava, o tráfego, que já era pequeno, diminuia mais. Milhares de idéias terríveis sobre o acidente passavam pela minha cabeça. Passou a meia noite, e já começava a matutar possibilidades do tipo jogar a moto no mato e pegar uma carona pra cidade, dormir no mato com saco de dormir, acender uma fogueira pra esquentar. Meu único companheiro era o radinho motorola, o qual eu ficava encarando por horas na esperança que ele mudasse o chiado vazio para as vozes dos meus amigos.

Passadas 5 horas de espera (era por volta das 2h da manhã), ouço uma voz falando palavras ininteligíveis no rádio. Foi um alívio! Apesar de não ter entendido nada, era um sinal que alguém estava se aproximando. Tentei responder mas acho que também foi em vão. Aguardei mais alguns minutos, e aí conseguimos nos comunicar direito: o Rui estava voltando com um guincho pra me levar. Mais alguns minutos e eles chegaram. Imediatamente pedi notícias do Chaltein: ele havia sido levado pro pronto socorro de Rio Branco, tinha tido uma pancada forte na cabeça, estava com o braço enfaixado e estava dormindo numa maca no corredor do hospital, onde o Logan montava guarda ao lado. O Logan tinha ido na ambulância, e a moto dele a a do Chaltein ficaram na casa de um morador que prestou ajuda, próxima  ao local do acidente.

Chegamos em Rio Branco, e o motorista do guincho, que estava visivelmente com sono e chateado por ter de sair de madrugada, compadeceu da nossa situação e nos ajudou a procurar um hotel disponível. Aparentemente havia um evento acontecendo na cidade e os hotéis estavam lotados. Achamos uma vaga num hotel razoável, mas sem garagem. Como não podíamos pedir muito, aceitamos e deixei a Buell na rua.

Pegamos a XT do Rui e fomos ao hospital encontrar o Logan. Combinamos que íamos fazer um esquema de revezamento, e eu começaria ficando no hospital na madrugada com o Chaltein, para o Logan e o Rui poderem dormir. Nessa hora, os olhares eram de desespero e tristeza, a condição do nosso amigo incerta. Estávamos numa situação extrema, exaustos, totalmente desamparados, a 3500 km de casa.

Relato do Rui (hacknroad.wordpress.com):

Até este dia haviamos andado sempre juntos, e a nossa versão da história é a mesma que o Dangelo conta, baseado no breve diario que manteve no celular durante a viagem. Mas os acontecimentos destes dias no Acre merecem a versão de cada um de nós, até para completar a história destes momentos confusos.

Conforme o relato do Dangelo, ja era noite quando entramos no Acre, conforme a foto da placa. A exatamente 37km de Rio Branco, estávamos no que consideramos a qualidade mais perigosa de estradas: asfalto liso, com poucos buracos gigantescos. Nestas condições, depois de reduzir por causa de um buraco, você retoma a velocidade de cruzeiro, e quando acha que os buracos acabaram, é surpreendido por um ainda maior. E em um destes a roda traseira da Buell quebrou.

Resolvemos sair eu e Chaltein em busca de ajuda, até Rio Branco se for preciso, enquanto o Logan esperava com o Dangelo na beira da estrada. Saio na frente, e pouco depois paramos em uma casa na beira da estrada, com algumas luzer acessas. Buzinamos, chamamos, mas ninguém respondeu. Pouco depois chegamos a uma pequena vila, algumas casas próximas à estrada. Também, chamamos, buzinamos, e nada. Depois desta ultima parada, o Chaltein saiu na minha frente e fomos em direção a Rio Branco. 12km depois de onde estavam Dangelo e Logan, chegamos a um trevo, em forma de uma rotatória esquisita. Vi o Chaltein reduzir a velocidade, e reduzi também. No escuro, nenhuma placa, só as luzes das XT. Contornamos o que parecia ser uma praça, em lugar do canteiro central, que agora dividia as duas pistas. Ao final dessa praça, uma bifurcação dividia a pista no meio, sem nenhum aviso. No susto, foco minha atenção na manobra para permanecer na pista principal, à esquerda da ponta do meio fio. Quando volto a visão pra frente, só vejo a fraca lanterna traseira da moto do Chaltein fazendo uma volta no ar e sumindo no chão. Chegando mais perto, a poeira ainda estava alta, a moto deitada no barranco à direita da pista, com as rodas para cima, e o Chaltein mais abaixo no barranco, deitado no meio do mato.

Pouco depois de voltarmos de viagem, procurei a imagem da tal rotatória no Google Maps, mas no lugar só havia imagem em uma qualidade muito baixa. Agora o Google atualizou as imagens da área, e consegui a seguinte imagem da rotatória em questão:

Trevo para Boca do Acre, próximo a Rio Branco - AC

Trevo para Boca do Acre, próximo a Rio Branco - AC

Nós vinhamos do canto inferior direito, na imagem acima, em direção ao superior esquerdo. À nossa direita fica a saida para Boca do Acre, e à esquerda, contornando toda a “praça”, para Senador Guiomard. Na época não havia essa construção bem do lado da rotatória. O ponto onde o Chaltein caiu é depois desta construção, logo depois de passar da entrada à esquerda para retornar, mais ou menos onde ha na foto uma mancha no asfalto. Havia no lado direito da pista um buraco leve, daquele tipo que se forma onde caminhões costumam frear, onde o asfalto forma uma falha, com um acumulo logo a frente, formando uma pequena rampa.

Do momento que vi o Chaltein caido em diante, o desespero e o cansaço deixaram as memórias bem mais confusas. O Chaltein estava desacordado, e fazia muito barulho para respirar, com muita dificuldade. Apesar das orientações de não remover o capacete de alguém que cai de moto assim, a respiração é mais importante que isso, e estava se tornando mais lenta, e ele parecia sufocar. A maldita presilha do capacete não abria, então cortei a cinta e removi o capacete com o maior dos cuidados possíveis numa situação dessas. Retirado o capacete e a balaclava, ele passou a respirar normalmente, e não encontrei nenhum sangramento, mas ele continuava desacordado.

Quando eu ouvia algum barulho de carro, subia correndo o barranco, que deve ter uns 3m de altura, e pulava e gritava na pista pedindo ajuda. Me lembro de alguns carros e caminhões que passaram direto, e com isso o desespero só aumentava. Hoje com calma me imagino encontrando um motoqueiro pulando e gritando numa rodovia deserta, à noite, no Acre, e não tiro a razão dos que não pararam. Nem sei quanto tempo se passou ali, entre eu olhando o Chaltein, procurando por ferimentos, e olhando pra ele desacordado sem saber o que fazer, e correndo barranco acima, gritando o mais alto que pudia, e quase pulando na frente dos carros que passavam. Até que parou um caminhoneiro que vinha da mesma direção que nós, e tinha passado pelo Logan e Dangelo. Vinha com a mulher, parou a carreta bloqueando a passagem pela rotatória, e desceu para ajudar. Saiu andando no meio do escuro, na direção do que parecia um poste aceso, e voltou dizendo que havia conseguido ligar para a emergência ( não me lembro se bombeiros, samu, PRF… ), que ja estava a caminho.

Como o caminhoneiro bloqueou o trevo, algum tempo depois algumas pessoas ja haviam parado atrás, e estavam ajudando a recolher os pertences do Chaltein que se espalharam no mato. Neste meio tempo o Chaltein acordou, e cambaleando e falando coisas desconexas se levantou e tentou andar, subindo o barranco. O deitamos mais em cima no barranco, ja próximo da pista, e o convencemos a ficar quieto. Ele fechou os olhos e voltou a um aparente sono.

Resolvi então ir atrás do Logan para que um de nós pudesse acompanhar o Chaltein quando o serviço de emergência chegasse. Combinei com as pessoas que estavam ajudando, e voltei os 12km até onde estavam Dangelo e Logan, e contei tudo o que estava acontecendo. Voltamos, eu e Logan, para onde o Chaltein havia caido, e algum tempo depois uma ambulância chegou. Os enfermeiros pediram nossa ajuda para colocar o Chaltein na maca. Eramos uns 5 o segurando por todos os lados, no barranco inclinado, para levanta-lo e coloca-lo sobre a prancha e prende-lo, enquanto ele se debatia e gritava de dor quando tocavamos no seu braço que até então não sabiamos que estava quebrado.

Uma das pessoas que ajudava me disse que poderiamos guardar a moto e outros pertences nossos do Chaltein em sua casa, que era ao fundo da igreja da qual ele cuidava, e que ficava na direção do tal poste aceso que se via do ponto em que estávamos. O Logan foi na ambulância acompanhando o Chaltein, e eu fiquei, com a ajuda dos outros, levando as motos e os pertences do Chaltein e do Logan até a casa deste homem. Deixei tudo guardado la e fui para Rio Branco. Era tarde, estava muito frio, não tinhamos comido nada desde o almoço, e eu tinha que encontrar uma maneira de buscar o Dangelo e sua moto.

Em Rio Branco perguntei em postos, liguei para telefones de guinchos que não atendiam, um outro que me disse que só poderia atender depois de muito tempo, e depois de rodar a cidade inteira, e perguntar pra todo mundo, o “muito tempo” acabou passando e fui com o tal guincho buscar o Dangelo.

Na volta, peguei a minha moto que havia ficado no posto policial na entrada da cidade, e fomos procurar um hotel para deixar as motos e nossas coisas e irmos atrás do Chaltein.

Dai em diante a historia volta a ser compartilhada com o Dangelo. A peleja pra achar o hotel, as motos na rua, e depois das 5 da manhã o Dangelo tomou o lugar do Logan no hospital e eu fui dormir, porque aquele era só o primeiro dia em Rio Branco.

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4 Comentários
  1. Tenso, hein, moçada!

    Tô lendo o blog de vocês por indicação do ThiagoHP, um amigo que temos em comum. Acabei de comprar minha primeira moto, uma Drag Star 650, e tenho muita vontade de fazer um passeio como esse de vocês. A história que vocês publicaram certamente servirá de motivação e informação para quando eu tiver a oportunidade de programar algo semelhante.

    Parabéns!

    • Valeu aí Matheus ! A intenção maior é ajudar a todos os motociclistas que quiserem se aventurar por aí, assim como nós buscamos ajuda em outros blogs na época de programar essa viagem.

  2. WELLINGTON MACIEL SOARES permalink

    Amigos, excelente narrativa a sua. Digna de publicação mesmo. Estou bastante empolgado para fazer a viagem, embora seja de Rio Branco-AC, encurtando assim o percurso. Quero começar até Cuzco mesmo, indo de carro a primeira vez. Agora me ajudem se puder é claro, tenho dois filhos, um de 6 e outro de 8. Vocês acham que sentirão o problema da altitude a ponto de comprometer a diversão ??? A priore, tenho uma Burgman 125 para o dia a dia. Dar pra dizer que tenho moto ??? eheheheheheh. Mas já evolui, comprei uma Citycom300i, estou esperando chegar.

    • Olá Wellington!
      O efeito do soroche (mal de altitude) varia de pessoa pra pessoa, e acredito que em crianças possa ser mais forte. Recomendo que você tente levar, ou compre por lá, os remédios recomendados para combater soroche. Os peruanos tem deles aos montes.

      Do Acre pra Cuzco hoje em dia a estrada já está 100% concluída! Asfalto liso e novo. Só não recomendo ir de 125 porque você pode ter que empurrar pela falta de potência na altitude. Já a Citicom deve sofrer mas provavelmente dá conta do recado!

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