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Machu Picchu – 8º Dia – Rio Branco

10/06/2011

Era sábado e o dia pra mim começou cedo. Passei a madrugada no hospital acordado, e vi o dia amanhecer da ala do pronto socorro, montando guarda em frente ao Chaltein. Usei o tempo que tinha para ir planejando o que seria feito assim que o dia raiasse.

Pra começar, iria acionar o seguro de viagem que o Chaltein fez. Esse tipo de seguro é muito útil para essas aventuras, já que garante assessoria em caso de acidente e translado de volta pra casa. Só que descobri que não era assim tão simples acionar o tal seguro. Pra começar, a atendente me informou que o próprio segurado que deveria requisitar o seguro, o que penei pra explicar que não seria possível já que o segurado estava inconsciente. Após inúmeras conversas com o pessoal do seguro, eles requisitaram conversar com um médico do pronto socorro para falar do paciente. Chegou aí outro porém: não havia médicos dispostos a atender o telefone. O plantonista que atendeu o Chaltein já havia ido embora e ninguém queria assumir o paciente. Não me recordo quando e como a família do Chaltein foi avisada do acidente, mas a mãe dele estava ajudando como podia de BH. Para piorar as coisas, nosso amigo continuava dormindo o tempo todo, com breve lampejos de consciência, ainda muito confuso e sem poder conversar com ninguém.

Enquanto o caso do Chaltein se desenrolava, liguei para o Paulo, um integrante de um motoclube acreano cujo contato nos foi passado em Vilhena pelo gerente da concessionária Yamaha. Mais uma dica: pegue e anote todos os contatos possíveis no caminho! Expliquei para o Paulo quem eu era, de onde eu vinha, o que tinha acontecido, e pedi ajuda com a questão da roda quebrada. Ele imediatamente se dispôs a nos ajudar e nos passou o contato do Zeca um amigo dele que era mecânico.

Liguei para o Rui ir para o hospital, e o Zeca foi me encontrar lá para ver a questão da roda. Repassei tudo que havia conseguido para o Rui e ele assumiu a questão de tirar o Chaltein do hospital. Eu e o Zeca fomos ao hotel onde a Buell estava (na rua) e ele verificou a roda, os pedaços, e disse que conhecia alguém que conseguiria soldá-la. Além disso, ele viu que a roda dianteira também estava danificada, com um amassado na lateral, coisa simples se comparada com a traseira, mas iria mandá-la arrumar também. Foi até a concessionária yamaha onde ele trabalhava buscar um carro com carretinha para motos. Enquanto isso eu e o Logan esperávamos na porta do hotel, e eu ia capengando e dormindo em pé, ainda com a roupa de cordura, num estado lastimável. O Zeca voltou, e, além de levar a Buell, se ofereceu para buscar a BMW e a XT acidentada, que haviam ficado na estrada, 40km de Rio Branco! Isso na maior boa vontade, sem cobrar nada e com um sorriso no rosto por poder ajudar! Ficamos imensamente agradecidos pela oferta, e o Logan foi com ele. Eu fui finalmente dormir.

No meio do dia, lá pelas horas do almoço, o Paulo, nosso primeiro contato, que morava em outra cidade, apareceu para conversar comigo e perguntar como tudo estava indo, e se prontificou a ajudar no que mais fosse preciso. Falei pra ele o problema com o seguro do Chaltein, a dificuldade de conseguir alta pra tirar  ele do hospital, de conseguir um médico para conversar com o seguro e nosso desespero pra mandar o Chaltein de volta pra BH o mais rápido possível. O Paulo então nos passou o contato de um médico amigo dele, o Sandro, que trabalhava no pronto socorro e poderia nos ajudar! Um alívio. Fui até o hospital e encontrei o Rui, repassei as informações e fui tentando contatos com o Sandro, o seguro e o neurologista do hospital, com 2 objetivos: conseguir a viagem de volta pelo seguro (só haviam vagas comerciais em aviões 15 dias pra frente…) e conseguir a alta do hospital.

Depois de mais uma sessão de telefonemas e contatos, passei novamente o bastão pro Rui e voltei ao hotel para dormir.

Relato do Rui ( hacknroad.wordpress.com ):

Depois de todas as emoções da madrugada, uma manhã bem da mal dormida, o Dangelo me liga para assumir o posto dele no pronto socorro. Eu ainda estava com a roupa de cordura porque do jeito que eu cheguei cai na cama e dormi. Na ligação do Dangelo eu ja recebo uma boa noticia, e lembro bem do meu sentimento de alivio quando a ouvi. Ele disse que durante a madrugada o Chaltein havia acordado, sentado na maca e conversado brevemente com o médico, neurologista, que disse que o estado dele era bom. Até então eu havia visto o Chaltein se sufocando, depois desacordado, depois brevemente acordado, e completamente desorientado, se debatendo, e depois desacordado novamente. Ouvir que ele se sentou e conversou, foi uma bela notícia.

Ja no pronto socorro o Dangelo me colocou a par da situação. O Chaltein havia recebido alta do neurologista, mas estava em uma ala de pessoas aguardando por cirurgias ortopédicas. Precisáva-mos de obter uma alta geral dele para o mandarmos para Belo Horizonte o mais rapido possível. E para isso eu devia encontrar um médico.

Foi um dia de muitos telefonemas, com a familia do Chaltein, com o pessoal do seguro, com nossas proprias famílias, entre nós mesmos… De tempos em tempos o Chaltein acordava desesperado para ir ao banheiro, pois ficava recebendo soro o tempo inteiro. Desorientado, saia tropeçando, arrastando tudo o que tivesse pela frente. Mas ja demonstrava melhoras. Nessas horas fazia perguntas, respondia algumas, e logo depois, voltava a dormir. Não comeu nada o dia inteiro, mas era mantido no soro, que as enfermeiras trocavam assim que acabava. De vez em quando davam a ele uma dose de analgésico, ligada ao soro, que o fazia dormir ainda mais.

Estavamos em uma ala grande do hospital, com pacientes que aguardavam cirurgias ortopedicas. Era um corredor longo com quartos cheios de gente enfaixada e engessada. O Chaltein passou o dia inteiro em uma maca no corredor, junto com muitos outros. Eu tinha uma cadeira ao lado dele. Com aquela roupa de astronauta, nosso jeito de forasteiro, e a péssima aparência do Chaltein, muita gente, pacientes e acompanhantes, perguntava o que tinha acontecido, parava pra conversar, oferecia ajuda, comida, água… Com isso, ao longo desse dia fui conhecendo alguns dos “inquilinos” daquela ala. E uma coisa me chamou a atenção. Motoqueiros. Muitos. Eu diria que uns 70%. A maioria com o braço ou perna quebrados, esperando cirurgia. Fora os acidentes de moto, me lembro de alguns atropelamentos, e um cara novo, conversador, com um sotaque diferente, que quebrou o braço montando touro. Contou as historias, era peão de fazenda e montava em rodeio,  ja tinha ganhado uma moto numa dessas, mas na ultima se deu mal e tava la, esperando pra colocar uns pinos no braço.

De manhã eu havia pegado a senha para as refeições do dia, mas na hora certa não me lembro porque não almocei. Deve ter coincidido com alguma das acordadas do Chaltein. Depois que todo mundo ja tinha almoçado, uma senhora me perguntou se eu ainda queria, pois haviam sobrado algumas marmitas. Não me lembro de ter comido nada desde a madrugada anterior, quando compramos uns biscoitos e uns achocolatados antes de encontrar com o Logan no pronto socorro. Pouco depois a senhora me trouxe uma marmita, ja fria, com a comida do dia.

Em uma ala próxima a que estávamos, havia um senhor bem magro, muito fraco, e que algumas vezes ao dia saia para caminhar pelos corredores próximos, incluindo o que estávamos, com aquelas camisolas de hospital, carregando um garrafão de plástico no nível dos seus pés, onde estava a ponta de um tubo plástico que subia por dentro da sua camisola. Não vou entrar em detalhes do conteudo do garrafão, até porque nem sei o que era aquilo, mas pode-se imaginar a aparência. O que me lembro muito bem é que, enquanto eu terminava aquela marmita, que nesta hora era só um resto gelado de arroz sujo de feijão, este senhor saiu para sua caminhada pelo corredor onde estávamos, a uma velocidade que deve dar um numero de um digito em milímetros por minuto ! Ele deve ter levado uma meia hora para passar por mim, enquanto eu empurrava o arroz gelado guela abaixo !

No início da tarde o Sandro, médico conhecido do Paulo, que era de um motoclube da região e cujo contato tinha nos sido passado pelo pessoal da Yamaha em Vilhena, apareceu la no hostpital depois de conversar com o Dangelo por telefone. Deu uma olhada no Chaltein, me tranquilizou um pouco quanto à situação do Chaltein, e nos fez desistir da ideia de leva-lo para o hospital da Unimed. Apesar da precariedade, ali no pronto socorro central haviam médicos de plantão que poderiam ajudar em casos extremos, o que não havia na Unimed.

No meio da tarde aconteceu a hora de visita. Os corredores ficaram lotados de familiares e amigos dos pacientes, que só eram autorizados a visita-los neste horário. Fora deste era autorizada a permanência de um acompanhante, e a troca dos acompanhantes só poderia acontecer no final da tarde, também em um horário determinado. Nunca estive em um presidio, mas com a imagem que construimos com os filmes a comparação foi inevitável. A movimentação na hora da visita, os familiares levando comida, revistas, roupas para os pacientes, me lembrou as cenas do filme Carandiru.

Com os corredores cheios, mais gente vinha perguntar a aquele astronauta sentado do lado do cara que dormia o que tinha acontecido, e durante a visita se formou uma pequena aglomeração ao redor de nós dois. Pessoas que ao final da conversa me faziam anotar seus contatos e se disponibilizavam para ajudar, apesar dos parentes em situação muitas vezes pior ( se um dia ler isso, um abraço para a Mazé, de Senador Guiomard – AC ).

Depois da visita distribuiram uma sopa de frango, e o Chaltein, ja apresentando uma visível melhora, se sentou na maca e consegui dar a ele, colherada a colherada, um copo de sopa, apesar da lambança que ele fazia. Cada pequeno sinal de melhora me animava muito, e eu via que acontecia o mesmo quando contava pro Dangelo e Logan.

No final da tarde o Logan veio para me substituir, e apesar de não ser o horario da troca dos acompanhantes, conseguimos dar um olé nos vigias e ele entrou.

Durante o dia nenhum médico do hospital passou por nós. Só as enfermeiras da ala que trocavam o soro do Chaltein. Conheci um monte de gente que ja estava la ha muitos dias, esperando cirurgia, numa fila na qual o Chaltein tinha acabado de entrar. Nesse meio tempo o Logan tinha ido buscar as coisas dele e do Chaltein, o Dangelo ja tinha encaminhado o concerto da roda, o Chaltein começava a melhrar, mas ainda não havia nenhuma previsão para ele voltar para BH.

Dali, pra mim, foi banho e cama.

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3 Comentários
  1. Caroene Gandra permalink

    Quem recebeu primeiro a noticia do Chaltein fui eu, depois de passar a noite e o começo do dia tentando algum contato com vcs e tinha acabado de conversar com a mãe do Chaltein, ela sem saber noticias e eu tb… Qd consegui falar com o Rui veio a noticia foi muito triste, quase chorei aqui lendo esse relato e lembrando do nosso desesperado aqui…

  2. matheus permalink

    cara , cadê o sétimo dia ? fiquei perdido, não tem detalhes do acidente , primeiros socorros??

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