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Machu Picchu – 11º Dia – Rio Branco (AC) – Assis Brasil (AC)

16/06/2011

Acordamos pouco antes das 8h. No dia anterior, deixamos as motos em uma oficina próxima do hotel, pra não ter que deixá-las dormir na rua. Assim que a oficina abriu pegamos nossas montarias e fomos montar as bagagens. O objetivo do dia era Puerto Maldonado, uns 200 km depois da fronteira peruana.

Na saída da cidade, passamos em um posto pra abastecer e verifiquei que meu pneu traseiro estava com algumas libras a menos. Podia significar duas coisas: ou calibramos errado no dia anterior e os equipamentos estavam com medidas diferentes, ou a roda recém-soldada estava vazando. A segunda possibilidade era um tanto quanto alarmante. Porém, pensei comigo mesmo, eu que não iria desistir agora. A roda aguentou manter pressão durante a noite. Provavelmente aguentaria andar sem problemas durante o dia, e bastaria calibrar todo dia de manhã. Arriscaria isso sem problemas! Pra facilitar as coisas, o Rui tinha nas ferramentas uma vareta de medir pressão e um calibrador manual de pneus. Era mais que suficiente.

Saímos de Rio Branco e seguimos para Assis Brasil,  a 330 quilômetros, a última cidade brasileira antes da fronteira. Estávamos extra-cuidadosos agora, por causa dos eventos recentes, ainda bem frescos em nossas memórias.

O trajeto em si foi tranquilo, e na parada que fizemos pra abastecer eu conferi a calibragem. Tudo certo! Ótimo! Parecia que a roda aguentaria. Chegamos na entrada de Assis Brasil, e paramos em um posto de imigração da PF, novinho em folha. Dava pra ver que era recém-construído. Esse posto ficava na estrada antes da entrada da cidade, e deveríamos fazer os trâmites para sair do Brasil.

O interessante é que a entrada de Assis Brasil ficava depois do posto da PF, pra onde também seguia a estrada pro Peru, então era possível vir do

Tuc-Tuc

Peru e ir a Assis Brasil sem passar pela imigração. Enquanto aguardávamos nossa vez de declarar nossos bens na alfândega, reparamos que vinham da fronteira alguns daqueles carros Tuc-tuc que eram comuns no Peru. Na verdade eles são motos modificadas com um chassi que suporta 2 bancos e uma pequena carenagem. Eles vinham e entravam direto pra Assis Brasil, sem passar pela imigração. Até porque não passariam, já que esses carrinhos são proibidos no Brasil. Existia ali um tipo de comércio entre Assis Brasil e o Peru, provavelmente com a cidade peruana de Iñapari, logo depois da ponte que separava os países, numa espécie de zona franca criada pela falta de controle do acesso a Assis Brasil. Como as duas cidades eram pequenas, o comércio ali devia ser mínimo. Porém, quando as estradas peruanas e brasileiras estiverem prontas pra conectar o centro-oeste brasileiro ao Pacífico e o movimento se intensificar, imagino que essa falta de controle causará algum problema.

O vídeo acima mostra a hora da travessia para o Peru. Ao fundo depois da ponte é possível ver parte da obra na estrada.

Resolvida a burocracia do lado brasileiro, fomos em direção à fronteira. Era chegada a tão esperada hora de pisar em solo estrangeiro. Depois de tudo que passamos até aqui, parecia que a verdadeira aventura estava pra começar! Saímos do posto de imigração, passamos pela entrada de Assis Brasil e continuamos na estrada. Havia um tipo de mirante no final da estrada do lado brasileiro. Passamos pela ponte que separa os países, e descemos em solo peruano, na cidadezinha de Iñapari!

Solo, no sentido literal da palavra. Assim que a ponte acabou, caímos num canteiro de obras imenso. A estrada ainda estava sendo construída do lado de lá.  Paramos logo a frente, e demos uma olhada em volta. Era um cenário muito diferente do que estávamos acostumados. Iñapari era pequena e aparentava ser uma cidade bem pobre, cheia de casebres de madeira e pequenas lojas, também de madeira, que faziam algum comércio ali. Era algo muito diferente da imagem que tínhamos de uma fronteira. Não havia nada que formalmente nos dissesse que estávamos entrando em outro país, a não ser os nativos que tem um biotipo bem característico do Peru.

Paramos próximo a uma parte da obra e perguntamos pra um dos trabalhadores onde era a imigração. Essa foi nossa primeira chance de treinar o portunhol! Pra nossa surpresa conseguimos nos comunicar, e ele nos indicou para ir em frente.

Seguimos em frente numa estrada de meia pista, já que as obras ocupavam a outra metade, e de repente fomos surpreendidos por um grupo de mulheres que avisavam pra pararmos. Inicialmente, não entendemos o porque delas estarem ali no meio da cidade a beira da estrada. Quando paramos, elas falando um arrastado português nos explicaram que a imigração era ali, logo em frente. Ali onde? Logo em frente. Literalmente.

A imigração era um casebre de madeira que ficava logo em frente onde essas mulheres montavam guarda. Elas eram cambistas e trocavam real e dólar por pesos, e vice versa. Já a alfândega, onde devíamos declarar as motos e pegar a permissão para entrar com elas, não passava de um pequeno contêiner daqueles de metal que ficava logo ao lado da imigração.

Estacionamos as motos e atravessamos a pista, e a obra, pra chegar na imigração. Lá entramos numa pequena fila e ficamos esperando o oficial de imigração aparecer. Enquanto isso conversamos com dois brasileiros que estavam entrando de carro. Eu estava com receio de ter problemas para entrar no país com a minha moto, pois ela não estava no meu nome, e sim no nome da minha mãe (longa história). O cara me disse que o carro também não estava no nome dele, mas que ele tinha ouvido de um amigo que ele tinha passaria numa boa. O máximo que iria acontecer era ter que dar uma gorjetinha pro alfandegário. Bom, não foi lá uma boa notícia. Já tinha lido relatos de viajantes que tiveram esse problema, e simplesmente tiveram que voltar ou tentar passar por outro ponto na fronteira. Nada bom.

Chegou o oficial de imigração, passaportes carimbados e vistos na mão, foi a hora de enfrentar a alfândega. Tenso. Rumamos pra lá. O oficial alfandegário abriu a porta, e deu um grito pro pessoal, avisando de alguma coisa, em espanhol. Só que… o pouco que eu entendi do aviso, é que os veículos só passariam se estivessem no nome da pessoa! O Rui e o Logan tiveram a mesma impressão. Caraio…

Foi chegando nossa vez. O Rui foi, fez o procedimento, saiu. Logan foi, mesma coisa, tranquilo. Aí eu fui. Entrei lá com os documentos na mão como os outros, como se não tivesse sabendo de nada. Sentei na mesinha lá, o cara olhou, olhou. Demorou um pouco, fiquei na esperança de passar batido. Mas não. Ele disse que a moto não era minha, não ia entrar. Carajo! Fui forçando um portunhol com o sujeito, tentando negociar, pedir ajuda, qualquer coisa. Só que, falar é bem mais difícil que entender, e sem comunicação ele só ficava no “no.”.

Saí de lá meio amargurado. Putz, o que ia fazer. Podia entrar no país sem os documentos da alfândega, correndo o risco de ser pego numa blitz. Só que provavelmente teria problemas pra sair do país também. Do lado de fora, conversei com o sujeito de antes que estava tentando entrar com o carro. Ele falou que ia conseguir entrar de boa. Perguntei como, e ele me indicou um cara com um bonezinho branco que ficava ali do lado das mulheres cambistas.

Esse cara era tipo um agenciador de propinas. Ele ia lá dentro e avisava pro tal alfandegário, o mesmo que tinha me atendido, que tinha alguém la fora disposto a fazer uma “doação” pra conseguir passagem. Ele falou que ia olhar meu caso, e foi lá trocar idéia na alfândega. Voltou e disse que eu ia ser atendido, mas que precisava voltar mais tarde. Aparentemente, um outro guarda que ficava lá na alfândega não podia saber do esquema e eu tinha que esperar ele ir embora.

Bom, aproveitamos o tempo que tínhamos pra visitar Iñapari. A cidade era realmente muito pequena e fomos a um restaurante, pra experimentar algo típico peruano. Sabíamos que frango era um prato típico, aqui conhecido como “polo”, e pedimos. O “restaurante” nada mais era que um casebre onde morava um casal e tinha algumas mesas postas na “sala”, um cardápio escrito na parede, e só. O polo em si era bom, com tempero forte, o que descobrimos ser comum por essas bandas. Enquanto andávamos por essas lojinhas encontramos um grupo de brasileiros em outro restaurante ao lado, tomando uma cerveja. Eles eram de Assis Brasil e costumavam vir com frequência a cidade do país vizinho pra comer, beber e comprar bugigangas, já que os preços e o câmbio de moedas era favorável. Realmente existia uma convivência conjunta entre as duas cidades.

Nossa primeira refeição peruana

Terminado o almoço, voltamos a alfândega. O sujeito tinha acabado de fechar a porta pra almoçar, e pediu pra todo mundo esperar. Depois do almoço, o cara me atendeu e tive que contribuir com 150 pesos pra associação beneficente dos alfandegários corruptos. Feito o cadastro e papel na mão, estávamos prontos.

Só que, devido a toda a enrolação que foi passar pela alfândega, já era final da tarde, por volta das 5h. Puerto Maldonado, nosso destino do dia, estava a mais uns 200 km de distância. Andar a noite, mesmo que por pouco tempo, em um país desconhecido, não era nem de perto uma boa idéia, depois de tudo que passamos. Resolvemos então aproveitar a “zona franca” e voltar a Assis Brasil para passar a noite, já que Iñapari não tinha a menor estrutura pra receber ninguém. Atravessamos a ponte de volta e rumamos pra lá.

Assis Brasil era uma cidade pequena, mas nos moldes brasileiros, ou seja, bem melhor que Iñapari. Achamos uma pensão pra dormir e fomos até uma praça, onde havia um quiosque no centro, para comer um apetitoso churrasco. Curiosamente, meu celular pegava a operadora peruana, e as ligações que fazia de Assis Brasil contavam como internacionais.

As ligações eram feitas para minha família. Enquanto estava passando no processo na alfândega, o gentil senhor (depois de receber a propina ele ficou gentil que só vendo) me avisou que provavelmente eu teria problemas pra entrar no Chile caso não tivesse uma “Carta de Poder”. Perguntei que carta é essa e ele disse que era um documento autorizando que eu viajasse com o veículo de outra pessoa, aceito no Peru, Chile e Argentina. Ele só não tinha me dado essa opção antes, mas tudo bem, eu não iria esperar o tal documento chegar ali mesmo. Só que o Chile seria um problema: os oficiais chilenos, os Carabineros, eram famosos por serem corretos e honestos e não aceitarem nenhum tipo de propina. Portanto, eu tinha que providenciar a tal carta antes de atravessar a fronteira do Chile. Liguei pra minha família e expliquei pra eles a situação, pra que providenciassem esse documento pra mim e ficassem prontos para enviá-lo.

Combinamos de acordar cedo no dia seguinte pra tentar chegar a Cuzco. Seriam 700 km até lá, incluindo uma subida de 4500 metros nos andes. E esse, finalmente, foi o último dia que dormimos em solo brasileiro na primeira etapa da viagem.

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