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Machu Picchu – 12º Dia – Assis Brasil (AC) – Mahuayani (PER)

20/06/2011

Saímos de Assis Brasil bem cedo, na esperança de conseguirmos fazer os 700 km até Cuzco sem andar a noite.

Sabíamos que iríamos enfrentar cerca de 100 km de trechos não pavimentados na Interoceânica. Essa estrada estava sendo construída para ligar o centro-oeste brasileiro ao oceano pacífico, afim de facilitar as exportações. Era um acordo entre o governo brasileiro e o peruano. Do lado brasileiro, haviam vários trechos sendo reformados. Do lado peruano, a estrada estava literalmente sendo construída, incluindo algumas pontes bem grandes. Pela grandiosidade da obra de lá, desconfio que o governo brasileiro tenha financiado tudo, já que nós seríamos os maiores beneficiários.

Passamos pela ponte que separa os países novamente, e dessa vez passamos direto pela imigração e a alfândega. Era um alívio ter resolvido todos os trâmites legais no dia anterior. Pelo menos essa fronteira desorganizada nos deu a opção de voltar a Assis Brasil mesmo depois de ter oficialmente entrado no país vizinho, coisa que não seria possível em nenhuma das demais fronteiras por onde passaríamos.

No primeiro trecho que fizemos no Peru, entre Iñapari e Puerto Maldonado, a visão geral era essa: uma estrada novinha em folha, com modernas calhas de água em toda sua extensão (esse trecho já estava pronto), uma selva densa em volta, pois ainda estávamos na região da amazônia, e um monte de casebres de madeira formando comunidades minúsculas na beira da estrada, extremamente pobres. A pobreza que vimos nessa região nos impressionou.

Uma cena constante: casinhas muito simples formando vilarejos na beira da estrada.

Clique aqui para ver o Video das paisagens

Interessante que alguns desses vilarejos tinham nomes de cidades famosas, como Miami, Los Angeles, Nova Iorque, São Paulo, entre outras. Mas uma em particular chamou bastante nossa atenção, como se pode ver no vídeo abaixo:

Continuamos caminho até Puerto Maldonado, a primeira cidade de verdade que conhecemos no Peru. Puerto Maldonado é a capital da província de Madre de Dios, possui 38 mil habitantes e é cortada pelo rio que dá nome à província.

Apesar de ser pequena, a cidade tinha um certo movimento no centro, e começamos a nos acostumar com a cena urbana no Peru: trânsito caótico em sua maioria, carros velhos remendados por todo lado, e é claro milhares de Tuc-tuc’s. Interessante notar que no Peru o uso da buzina é extremamente comum, quase que uma regra. Todo mundo anda buzinando o tempo todo. Buzinam pra virar a direita, buzinam pra virar a esquerda, buzinam pra sair do sinal, buzinam pra parar, buzinam pra avisar o pedestre que está passando, buzinam pra dizer bom dia, buzinam pra tudo!  Parece que os veículos não funcionam se não forem buzinados constantemente. Se um dia você ver um peruano buzinando a toa, não brigue com ele, faz parte de sua natureza.

Chegamos a uma parte na cidade onde a estrada termina em uma obra de ponte, na travessia do rio Madre de Dios. Descemos até um ponto abaixo da obra para pegar uma das “balsas” que atravessam o rio, que nada mais eram do que barcos bem simples e pequenos de madeira que tinham capacidade para transportar um carro e alguns passageiros. Embarcamos as motos, e de lá pudemos ver a ponte que estava sendo construída para viabilizar a estrada.

Paramos em um posto na cidade pra abastecer, e uma surpresa: medidas em galões! As bombas todas tinham escritas e legendas em inglês, não espanhol, e mediam a gasolina em galões e não litros. Fiquei curioso se no Peru a medida padrão é realmente o galão ou se eles tiveram que se adaptar para reaproveitar bombas de gasolina de outros países. Interessante que era possível escolher entre vários tipos de gasolina com quantidades de octanas diferentes. Geralmente estavam disponíveis gasolina de 84 e 90 octanas, e em alguns postos a de 94.

A octanagem é uma característica que tem a ver com a qualidade da gasolina, e quanto mais, melhor. No Brasil, apesar da gasolina ser melhor que no Peru, o álcool misturado nela a deixa em média com 87 octanas pra gasolina comum, 91 octanas a premium e 95 a podium. Portanto, enquanto fora do Brasil, em geral optamos por abastecer com a gasolina de 90 octanas ou mais. Claro que, era impossível determinar a qualidade real da gasolina, que pela aparência dos postos não devia seguir assim com tanto afinco as regras de qualidade e classificação internacionais.

Nesse ponto estávamos a 200 metros de altitude. A estrada que pegaríamos passaria por trechos a mais de 4500 metros. Saímos de Maldonado e seguimos em direção a Cordilheira dos Andes e a subida começou. No início a vegetação ainda era densa, e foi sumindo aos poucos. Estávamos em um ritmo muito bom de viagem, e parecia que os planos para chegar em Cuzco dariam certo.

Mas esse não era um dos nossos dias de sorte. Por volta das 2h30 da tarde, vimos um engarrafamento de veículos e paramos em uma barreira policial. A notícia não era nada boa: o pessoal da obra estava utilizando dinamite para explodir pedras, e só seríamos liberados a partir das 5h30. Perderíamos 3 horas de viagem e nossos planos de chegar a Cuzco agora não eram tão plausíveis.

Na barreira policial. O mau encarado aí atrás na verdade era gente boa.

Curiosamente, o tempo que passamos na barreira foi a nossa primeira experiência social com os nativos peruanos. Antes, tínhamos apenas passado pela fronteira, parado pra almoçar e abastecer. Enquanto estávamos esperando, o pessoal vinha curioso pra ver as motos e os forasteiros, e tentávamos conversar com eles, contar da nossa aventura. O Rui parecia ansioso pra treinar seu portunhol e foi puxando conversa com o povo. Era difícil a comunicação no início, mas com o tempo achávamos as palavras que eram parecidas nas duas línguas e conseguíamos nos comunicar com elas. No meio da conversa com um grupo que andava em uma van, nos deparamos com um deles, um senhor, gentilmente nos oferecendo maconha e cocaína. Recusamos com a desculpa que ainda tínhamos um longo trecho pela frente.

Fomos liberados da barreira no horário prometido, 5h30. Aproveitamos o resto da luz do sol como pudemos, mas não conseguimos chegar a um abrigo antes da noite vir. A subida agora era bem forte, e esse trecho tinha vários desvios de terra. Em alguns deles tivemos que atravessar até pequenos rios. Uma dessas travessias foi feita a noite, o momento mais tenso do dia. Um outro desvio era tão grande e levava para uma área tão aberta e remota que nos fazia pensar se ali era realmente o caminho.

Entre um desvio e outro, passamos por vários acampamentos dos trabalhadores da obra. Um deles parecia uma cidade de lona: milhares de pessoas acampadas, casas, restaurantes, oficinas de motos, hotéis, tudo feito com lonas pretas, até perder de vista. Enquanto isso, a noite ia chegando e o frio ia aumentando. Estávamos doidos para arrumar um lugar para passar a noite, mas não haviam cidades nem vilas no caminho. Cogitamos até mesmo dormir num desses hotéis de lona dos acampamentos. Paramos para pedir informação, e os trabalhadores disseram que lá tudo estava lotado, e nos aconselharam a seguir para Ocongate, a próxima cidade. Ocongate devia estar de 100 a 150 km do ponto onde estávamos, mas a situação começava a ficar crítica: a noite, os desvios de terra, o frio e a altitude começavam a nos afetar.

Pelo menos pudemos apreciar a noite nos andes. Era belíssima. O céu era límpido e ainda azul, e apesar da falta do sol, a noite era clara, bem mais do que as nossas noites de lua cheia. As estrelas pareciam saltar de um pano de fundo azul. Avistamos os primeiros picos nevados dos andes ao longe, uma visão e tanto, ainda mais pra quem nunca tinha visto neve na vida. O frio, no entanto, era intenso.

Em meio a subida, o frio começou a queimar o peito e parei pra me agasalhar mais. Logan e Rui pararam logo em seguida. Colocamos nossas segundas peles e luvas de frio. Nesse momento, foi possível ver o quanto a altitude estava nos afetando: tínhamos problemas de equilíbrio e falávamos embolado uns com os outros. O Logan demorou uns 10 minutos pra conseguir colocar a mala de volta no lugar depois de abrir pra pegar a segunda pele. Nesse ponto, talvez se não tivéssemos despachado as barracas com as malas do Chaltein, dormiríamos acampados ali mesmo. Era um risco continuar pilotando no estado que estávamos. Combinamos que iríamos parar na primeira oportunidade.

As segundas peles fizeram efeito: o frio não incomodava tanto mais. Pelos veios de gelo que víamos ocasionalmente próximos a estrada, acredito que estávamos em uma temperatura próxima de zero grau, a noite.

Mais um pouco de subida e chegamos a um vilarejo minúsculo que ficava a beira da estrada. Em uma das casas havia uma placa que dizia “Hospedaje”. Paramos e pedimos abrigo, e fomos aceitos por uma pechincha: 7 soles por pessoa (algo em torno de 4 reais). Na prática era uma casa onde morava um casal que tinha 3 quartos extras pra alugar. Não havia banheiro, apenas fossas, e sequer tinha linha telefônica no local. Os quartos ficavam no andar superior, e descobrimos outro efeito indesejado da altitude: sofremos pra conseguir subir com as malas na escadinha que dava acesso aos quartos. Era impressionante como cerca de 3 metros de altura agora pareciam uma escalada inteira no Everest. Meia dúzia de degraus era suficiente pra retirar completamente nosso fôlego. Não havia também nada de comida pra vender no local, nem no resto da vila. Por sorte o Rui tinha um fogareiro e miojo nas bagagens, que foi o nosso jantar.

À esquerda, a escadinha maldita da Hospedaje.

Foi assim que passamos nossa primeira noite em solo estrangeiro na Vila Mahuayani, no meio da cordilheira dos andes, a 4700 metros de altitude!

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3 Comentários
  1. Ramon Lopes de Lima Mendes permalink

    Cara, vc escreve muito bem, isso nao é um blog, é um livro Virtual! Parabens!

  2. Estevan permalink

    e ae meu amigo !! Meu nome é Estevan eu to afim de fazer essa viagem tbém, to vendo seu blog aos pqs pq tem muita coisa legal !!

    eu queria umas dicas sobre documentação p passar pelas fronteiras , a tal da carta verde , o que vc pode me ajudar em informações sobre esse processo ?

    Obrigado e parabéns pelo seu blog.

    • Olá Estevan! A carta verde é uma espécie de seguro internacional contra acidentes, válido no mercosul. Geralmente pode ser expedida pelas próprias seguradoras onde já se tenha seguro. Caso não tenha seguro (como foi meu caso), várias seguradoras emitem carta verde bastando pagar uma taxa. É útil principalmente para Argentina, Uruguai e Paraguai, onde é exigida para se trafegar.

      No Peru eles cobram um outro seguro, chamado de SOAT (o DPVAT deles). Para emitir o SOAT (o que eu não fiz…) é necessário ir numa autoridade de trânsito peruana, não sei se é possível emitir do Brail. A legislação lá é confusa e de difícil acesso, já vi lugares falando que motos não precisam de SOAT, mas os guardas peruanos corruptos que encontramos no caminho usaram isso como desculpa para cobrar proprina.

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