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Machu Picchu – 19º Dia – Cusco (PER) – Santa Rosa (PER)

19/07/2011

Acordamos cedo e fomos pegar as motos, que estavam em uma garagem próxima. Colocamos as montarias na rua em frente e fomos montando as bagagens enquanto fechávamos a conta do albergue.

Saída de Cusco

O objetivo do dia era Puno, a cidade peruana que dá acesso ao lago Titicaca. O Titicaca é o lago “comercialmente navegável” mais alto do mundo, situado a 3821 metros de altitude. Um fato bastante interessante é que a fronteira entre Peru e Bolívia passa no meio do lago. Ele também é famoso por abrigar as Islas Flotantes, ou Ilhas Flutuantes, que são ilhas artificiais feitas de palha onde vivem famílias inteiras, no meio do lago.

Puno era relativamente próxima, uns 400 km de Cusco, e saindo de manhã deveríamos ter uma viagem tranquila até lá. Mas, o que seriam dos relatos se as viagens fossem todas tranquilas… hehe.

Voltamos parte do caminho até Cusco para pegar a estrada que levava a Juliaca, e passando por lá chegaríamos a Puno. Voltaríamos até uma cidadezinha que se não me falha a memória se chamava Urcos, pra de lá seguir pela estrada de Juliaca. A viagem corria muito tranquila, dia bom, não muito frio. Chegamos a Urcos e passamos direto em direção a Juliaca.

Pouco depois de passarmos por Urcos, começamos a perceber algo estranho da estrada. Alguns carros passavam voltando e faziam sinal tentando avisar de alguma coisa. Além disso percebíamos que haviam algumas pedras espalhadas aleatoriamente na estrada, como se tivessem sido colocadas a mão.

Andamos mais um trecho e vimos uma fila de carros parados. Fomos cautelosamente passando pela fila, e pra nossa surpresa, vimos que os carros estavam parados não por causa de um acidente ou engarrafamento, mas porque a estrada tinha sido totalmente bloqueada com enormes pedras, e logo a frente havia uma aglomeração de pessoas. Estávamos ali diante de um “Paro”, que nada mais é que um protesto.

O Paro

Mas que sorte a nossa. Quais as chances de pegarmos um protesto na estrada bem no meio de uma viagem? Bom, na verdade, eram bem grandes. Enquanto esperávamos na estrada conversamos com outros motoristas para saber o que estava acontecendo exatamente, sobre o que se tratava o protesto. Estranhamos a resposta de um deles que disse algo do tipo “Não sei, cada lugar é um protesto diferente”. Mas hein?

Depois, aprendemos que essa data, 28 de julho, é o dia da independência do Peru. E tradicionalmente uma série de protestos acontecia no país inteiro reclamando as mais diversas exigências. E nós estávamos ali vendo as “comemorações”.

Nosso tempo passava e ficávamos ali parados. Começamos a pensar em alternativas. Uma delas era passar pelos cantos com as motos. Desistimos quando vimos um bando de mulheres jogando pedras num outro motoqueiro que tentou a mesma coisa. Além disso existia a possibilidade de se passar por uma estrada alternativa que alguns motoristas comentaram com a gente. Era meio arriscado até porque não conhecíamos nada da região.

Chegou um momento então que eu cogitei a idéia de ir lá e simplesmente requisitar aos organizadores do protesto que nos deixassem passar, já que éramos simples turistas brasileiros passando pelo local e não tínhamos nada a ver com o protesto. Como não havia muito mais a fazer decidi ir lá para ver de perto e quem sabe conseguir uma palavrinha com o líder.

Fui entrando na multidão e um fato não muito bom ocorreu: as roupas de cordura chamavam bastante atenção ali naquele meio. Não demorou muito e fui cercado por um monte de crianças que queriam pegar na roupa e nas luvas, e ficavam me perguntando quem eu era, de onde eu vinha, o que era aquilo, etc. Uma atenção um tanto quanto indesejada no momento. Enquanto tentava ficar mais discreto tentei prestar atenção no que um homem dizia em um megafone.

Apesar do espanhol limitado, eu consegui entender que aquele protesto ali era a respeito do gás peruano que, na opinião deles, estava sendo vendido a preço de banana pro Brasil prejudicando o povo! Na hora que ouvi isso já fui me afastando o mais discretamente possível, voltando ao meu posto de espera ao lado das motos na estrada. Seria bem conveniente um brasileiro ali em meio a um protesto que envolvia o Brasil.

Voltamos a esperar. Um dos motoristas que estavam ali nos informou que a polícia estava a caminho para liberar a estrada. Isso poderia ser bom ou ruim: bom se os manifestantes abrissem caminho na paz, ruim se iniciasse um combate entre a polícia e eles. Restava esperar pra ver.

Cerca de uma hora depois, os policiais chegaram. Vinham em tropas armadas com cacetetes e escudos. Mau sinal. Porém, os policiais pararam antes do protesto, e ao que parece alguns deles foram lá pra conversar pacificamente com os manifestantes.

Pouco depois veio um aviso dos policiais para os motoristas que estavam ali parados: poderíamos passar pela estrada, desde que apoiássemos o protesto escrevendo “Viva el Paro” nos para-brisas dos carros e fizéssemos um buzinaço. No nosso caso, teríamos que escrever nas bolhas das motos. Enquanto os policiais retiravam as pedras das estradas, pensávamos em maneiras de escrever isso. O Rui teve a idéia de usar pasta de dente pra escrever na bolha da XT e o fez. Eu e o Logan não fizemos muita questão e fomos sem nada mesmo.

Passamos pelo paro buzinando e gritando “Viva El Paro!” sob os aplausos dos manifestandes e proteção da polícia. Erguíamos as mãos e gritávamos pra eles. Quem diria, saimos de Belo Horizonte pra ir participar de um protesto no Peru contra a venda de gás ao Brasil!

Continuamos o caminho depois de passar pelo Paro com cuidado, já que a estrada ainda estava recheada de pedras jogadas pelos manifestantes. Andamos cera de 50 km apenas, pra mais na frente nos depararmos com outra fila de carros parados, em frente a uma ponte barrada por uma multidão. Por incrível que pareça, havíamos chegado a outro paro.

Fomos nos informar e vimos que dessa vez se tratava a respeito da exploração de um rio da região. Também nos informaram que a polícia deveria estar a caminho para reabrir a estrada, os mesmos homens que haviam acabado de abrir caminho no último paro. Mais uma vez nos restava esperar.

Enquanto aguardávamos o Rui foi conversar com um argentino que chutava uma bola pra lá e pra cá com o filho dele na estrada. Lógico que, juntando um argentino e um brasileiro e com uma bola rolando, o papo rapidamente foi pro futebol. Pra infelicidade do Rui, quando o sujeito soube que ele era de BH e era cruzeirense, puxou da carteira um cartão de associação a uma torcida organizada do Estudiantes de La Plata. O cruzeiro tinha acabado de perder a libertadores pro estudiantes. O Rui voltou pra perto de nós exclamando “argentino filho da puta”!

No meio dessa espera, um dos motoristas veio avisando que alguns manifestantes estavam subindo o barranco que ficava do lado esquerdo da estrada, pra lá de cima poderem tacar pedras nos carros quando os policiais viessem. Ao ouvir isso corremos para colocar as motos atrás de um caminhão que estava ali na fila, e as pessoas se abrigaram da mesma forma. Sorte nossa que não ocorreu nenhum ataque desse tipo.

A polícia chegou, cerca de mais uma hora depois, e mais uma vez abriu caminho na estrada pacificamente. Passamos e continuamos nosso caminho. Já era tarde e parecia difícil conseguir chegar em Puno ainda nesse dia. Paramos em um posto pra abastecer e aproveitamos pra “almoçar” em um vendinha próxima. Lá, perguntamos da situação das estradas pra frente, em relação aos paros. A mulher nos informou que pra frente estava tudo liberado, não tinha problema nenhum. Ótimo!

Saímos dessa venda e sequer 10 minutos se passaram até chegarmos no próximo paro. Mas que sorte. Eu estava a frente, e fui andando bem devagar em torno dos carros parados. Chegando na frente da fila, percebi que os manifestantes estavam abrindo caminho para a passagem de alguns caminhões, que saíam da fila na contramão para passar. Parecia que alguém tinha negociado a passagem deles. Sem nem parar pra conversar fomos entrando atrás de um caminhão e passando pelo paro, sob alguns olhares furiosos que perceberam que não era nosso direito estar passando ali também. Sorte que ninguém agiu contra nossa passagem e continuamos a viagem.

Nesse ponto em diante o dia foi terminando, o frio chegando e Puno ainda estava longe. No anoitecer, a luz de falha de motor da minha moto se acendeu por 2 vezes. Apesar da luz o motor não mostrava nenhum sintoma de falha. Por via das dúvidas, eu parava na beira da estrada, desligava a moto e ligava novamente, no que a luzinha se apagava. Já tinha lido em fóruns (aliás, um agradecimento especial aqui a todo o pessoal do BuellBR, que muito me ajudou a preparar a moto pra essa viagem) que isso podia acontecer devido a gasolina ruim e mudanças de altitude. Sem sinal de maiores problemas, continuamos a viagem, e quando a noite chegou decidimos que iríamos parar na próxima cidade disponível.

Paramos então em Santa Rosa, uma cidadezinha a cerca de 150 km de Puno. O frio nessa hora era de lascar. Arrumamos uma pensãozinha pra ficar, tão rústica quanto aquela que nos abrigou nos andes, sem chuveiro e sem banheiro (apenas fossas). Por sorte essa cidade tinha um pouco mais de recursos e fomos a um restaurante jantar.

Chegamos a um restaurantezinho, onde se via poucas mesas dispostas em uma salinha, um balcão e um sorridente atendente que nos recepcionou, o Alejandro. Quando entramos, ocorreu uma cena hilária. Chegamos perguntando, num espanhol arrastado:

– Hai cerveza? (tem cerveja?)

– Haaai! – Respondia o sorridente Alejandro. Nesse momento, ele se abaixou e pegou uma garrafa de cerveja num engradado que ficava ali, no chão, ao lado do banco onde ele sentava, e colocou no balcão.

– Hmm, helada? (gelada?)

– Helada! – Respondia o Alejandro, sorrindo e colocando a mão na garrafa pra mostrar pra gente que sim, estava gelada, a cerveja que ele tinha acabado de pegar no chão.

Bom, não estava assim gelada, mas realmente no frio que estávamos a temperatura da cerveja não era assim tão ruim. Depois da cerveja, pedimos o jantar, que estava muito bom (truta em qualquer lugar no peru é pedido certo!). Voltamos a pensão para dormir. No dia seguinte tentaríamos chegar em Puno ainda na parte da manhã, para compensar um pouco o atraso.

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2 Comentários
  1. Muito pior que “um cartão de associação a uma torcida organizada do Estudiantes de La Plata”, o desgraçado do hermano me mostrou foi um cartão de um hotel de Belo Horizonte. Lembro claramente que a primeira coisa que li do cartão foi “praça Raul Soares”. O maldito realmente era torcedor do Estudiantes e tinha vindo a BH na final, e ficado nesse hotel. Lembro dele contar que roubaram todos seus pertences no hotel. Bem feito 🙂 !

  2. Este relato fica cada dia melhor…que continua a história.

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