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Machu Picchu – 25º Dia – San Pedro de Atacama (CHI) – San Salvador de Jujuy (ARG)

04/08/2011

Saímos de San Pedro do Atacama em direção a Argentina, para o que seria de longe o dia mais frio da viagem.

Na saída da cidade fizemos os procedimentos alfandegários, ou seja, carimbamos os passaportes na imigração para saída do país e declaramos na aduana a saída das motos. A partir daí seriam mais de 150 km até a fronteira chile / argentina, e mais uma vez passamos pela situação de oficialmente não estar em país nenhum!

Pegamos a estrada em direção ao Paso de Jama. O objetivo do dia era chegar na cidade argentina de Salta. A temperatura saindo de San Pedro já era bem baixa, e ao longo do dia a medida que avançamos em direção a argentina ela só baixou mais. Porém, era perfeitamente plausível andar nessas condições: bastava vestir as segundas peles e os forros das jaquetas, luvas boas e meias grossas, além de balaclava, e não deixar nenhuma fresta na roupa. Para não sentir o frio intenso o principal era impedir a entrada do vento.

Nesse trecho entre San Pedro e a Argentina, por alguma conjunção do universo a qual não tomamos conhecimento, as motos se mostraram beeem enfraquecidas. A XT não passava de 90 km/h, a BMW chegava a 100. Aparentemente não era um trecho diferente dos demais que tínhamos passado no deserto. A paisagem incluía diversas montanhas ao fundo com veios de gelo escorrendo sobre elas.

A paisagem agora incluída bastante gelo.

As motos sofreram bastante nesse trecho.

Houve um momento bastante tenso nesse trecho de viagem: uma tempestade de areia atravessou a pista! Passamos por ela encarando ventos bem fortes. Minha preocupação era proteger os olhos e a entrada de ar da Buell, que fica logo a frente da caixa de ar (o tanque falso).

Continuamos rumando para o leste, e em um momento tivemos que parar para tirar fotos e fazer filmagens: estávamos passando ao lado de um rio congelado! Incrível. No meio do deserto com o sol a pino, um rio congelado passava ao nosso lado.

Assim fica fácil andar na água!

As paisagens congeladas continuavam nos acompanhando!

Deserto, montanha, água e gelo, no mesmo lugar!

Continuamos andando e finalmente chegamos na fronteira argentina. Paramos na aduana para fazer as tramitações. Pelo menos dessa vez não havia nenhum problema pelo fato de eu estar entrando com um veículo de terceiros.

Na aduana argentina. Lá encontramos dois "colegas de profissão"

Entrando na Argentina, o deserto continua por um tempo, mas a paisagem começa a mudar a medida que a altitude abaixa. As plantas começam a reaparecer, e a umidade começa a aumentar. Lembrando que estávamos no Atacama, o deserto mais árido do mundo, portanto a umidade era um fator extremamente relevante.

Esse fato, da umidade aumentar, apesar de fazer bem as nossas narinas e ajudar a respirar, tem um efeito colateral: o frio! A sensação térmica é diretamente proporcional ao frio, ao vento e a umidade do ar. Estávamos andando no frio abaixo de zero grau, e com ventos absurdos. Portanto a umidade baixa ajudava a não sentir tanto frio. Só que uma vez que ela aumentou, o frio começou a roer as juntas.

Continuamos o caminho, acostumando mais ou menos ao frio mais úmido, quando nos deparamos com uma estrada fantástica: era um enorme vale por onde desce uma estrada serpenteante.

Como se pode ver pela foto acima, em meio a essa descida do vale havia uma enorme nuvem, pela qual a estrada passava. Paramos bem antes de entrar nela para registrarmos o momento, uma visão sensacional.

Depois das filmagens e fotos, continuamos a estrada e entramos na nuvem.

Foi terrível! Péssimo! Aterrorizante! Calamitoso! Absurdo!

Uma vez dentro da nuvem, a umidade era extremamente alta, e o sol não mais nos iluminava. O frio, que já era difícil, ficou insuportável. Doía tudo: dedos, nariz, olhos, joelhos, pés, braços. Qualquer movimento era um suplício. Pra completar, a estrada não tinha acostamento e não podíamos parar em meio aquela névoa onde mal se enxergava. Tínhamos que continuar descendo. Houve um momento em que minha viseira molhou demais, e usei dois dedos da mão direita para limpá-la, e luva molhou. Desse momento em diante achei que ia perder esses dedos. Eles doíam tanto que ficavam dormentes. Isso porque eu tinha aquecedor de manopla, que ajudava a manter e mão quente, mas não tinha tanto efeito nos dedos, e estava com luvas de esquiar na neve. A situação das mãos dos meus dois amigos devia estar bem pior.  O nariz já tinha dado como caso perdido. Dava pra sentir a pele do rosto que não estava sob a balaclava queimando de frio.

Fomos descendo. Em meio a esse sofrimento todo, a descida parecia durar horas. Até que finalmente, deixamos a maldita nuvem. A estrada continuava descendo até chegar ao fundo do vale, de onde podíamos olhar para cima e ver a nuvem, no céu, como qualquer outra nuvem carregada que se vê. Pensei nas crianças inocentes que se imaginam andando em nuvens de algodão doce. Só se for algodão de gelo. Muito gelo.

Paramos em frente a uma vilazinha para descer das motos e descansar. Apesar da situação do frio ter melhorado, não era ainda nada aconchegante. As roupas ainda estavam úmidas e esfriavam muito com o vento. Ficávamos abraçando os escapamentos das motos pra ver se resolvia, mas não era nada eficiente. Nessa hora olhei pra cima e, vendo a nuvem carregada em cima de nós, falei:

– “Agora só falta chover…”

– “Cara, se chover, a gente pára na beira da estrada, senta, chora, e morre!” – respondeu o Rui.

Apesar de não estarmos muito atrasados, combinamos que pararíamos na próxima cidade, antes de chegar em Salta. O frio tinha acabado com nosso ânimo: parecia que estávamos voltando de uma guerra, abatidos, abalados, chateados, desmotivados, sem vontade de cantar uma bela canção. Tudo o que queríamos agora era uma cama com cobertas e um banho quente. O resto da viagem podia esperar.

Continuamos na estrada até chegar em San Salvador de Jujuy. Lá, demos uma volta até chegar no centro da cidade, e paramos em frente a uma pensão com uma cara de lugar chique. Descemos das motos e fomos lá olhar. O preço era salgado comparado com o que tínhamos pago até então, mas nada exorbitante (se não me engano era em torno de 80 pesos argentinos a diária). Só que a pensão não aceitava cartão e não tinha garagem, e teríamos que pagar uma garagem em frente a ela se fóssemos ficar lá. Nisso, o Rui comentou de procurar outros lugares. Eu e o Logan não estávamos nem um pouco animados, e o Rui foi sozinho.

Enquanto esperávamos, eu e o Logan ficamos olhando aquele lugar chique na nossa frente. Devia ter camas boas lá dentro… e chuveiros decentes… e quartos quentes… e não era assim tão caro… e já estávamos ali mesmo…

Quando o Rui voltou, foi relatando as opções que ele encontrou de lugares mais baratos, com garagem, etc. Nisso eu e o Logan fizemos aquela cara de “to morto” e dissemos “Po, vamo ficar aqui mesmo, hoje a gente merece um lugar desse!”. E foi, acabamos ficando nessa pensão, que correspondeu as nossas espectativas.

Mais a noite, saímos na cidade para comer, e fomos experimentar a famosa parrilhada argentina, um tipo de rodízio de carnes. Depois do dia que passamos, também estávamos mortos de fome. A parrilhada era simplemente sensacional! Uma coisa que tivemos que dar o braço a torcer: esses argentinos sabem como fazer uma carne! Comemos até virar do avesso.

Voltamos à pensão e fomos dormir, agora felizes, satisfeitos e aquecidos!

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One Comment
  1. Acho que estava mais frio que outros dias da viagem mesmo, mas ja estávamos mais acostumados, preparados, e eu ja tava com o fodas no máximo. Pra mim o primeiro dia subindo os Andes – 12º Dia – Assis Brasil (AC) – Mahuayani (PER) -, de noite, tonto de altitude, sem a segunda pele, com o interior da roupa umido de passar a tarde parado na estrada, foi “psicologicamente” mais frio.

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