Skip to content

Oiapoque – 10º Dia – Macapá – Amapá

29/08/2012

Bom, antes de mais nada, o título desse post não está errado. Tudo será esclarecido com a leitura.

Acordamos no tal hotel bacana de Macapá, e a primeira coisa que tivemos que fazer foi registrar o estado do nosso quarto.

Vida de motociclista é assim...

Vida de motociclista é assim…

Saímos do quarto, tomamos um farto café da manhã e começamos a arrumação para sair. Nesse meio tempo chamamos atenção de alguns outros hóspedes do hotel. Os primeiros a nos pararem foram turista guiano-franceses… franco-guianenses… guianenses-franceses… gente lá da guiana francesa. Tentamos nos comunicar mas o francês do Rui ainda não estava calibrado o suficiente.

PDF-MC em Macapá - AP

PDF-MC em Macapá – AP

Logo depois um companheiro de Divinópolis no abordou. Como todo motociclista sabe, quando se diz “companheiro” quer dizer que a pessoa também é motociclista. O Cecy era integrante do motoclube Tigres do Asfalto e ficou curioso com as três motos mineiras no estacionamento do hotel. Depois ficou fascinado com nossa história de como queríamos chegar ao Oiapoque em nossas montarias.

Cecy selando nosso encontro com os Tigres do Asfalto (Divinópolis-MG)

Cecy, selando nosso encontro com os Tigres do Asfalto

O Cecy mesmo estava lá com mais 2 amigos, todos motociclistas, mas haviam ido de avião. Estavam aproveitando as últimas semanas do Zé Carlos, um dos 3 companheiros, no Pará: mineiro belo-horizontino que morava em Belém e estava de mudança de volta para sua terra natal. Não conhecemos o Zé Carlos nessa ocasião: ele e o Bolão, o terceiro integrante, não estavam muito bem no dia e não apareceram por lá. Não sabíamos, porém, o quanto ainda agradeceríamos ao Zé Carlos até o fim de nossa viagem.

Rios largos e florestas densas e altas. A amazônia nos abraçava.

Rios largos e florestas densas e altas. A amazônia nos abraçava.

Saída de Macapá em direção ao norte! Sim, ainda haviam caminhos que seguiam nessa direção. Na verdade, apenas uma estrada, e com duas partes bem distintas. Seriam 360 km até o município de Calçoene, onde o asfalto se esgotava, para então mais 200 km de estrada de terra até Oiapoque. A estrada de terra seria o trecho mais difícil da viagem, e como precaução, decidimos deixar um dia inteiro para passar por ela. O objetivo do dia então era Calçoene, distante apenas 360 km de nossa localidade, portanto o dia deveria ser tranquilo. Deveria…

Para o norte, e avante!

Para o norte, e avante!

Nesse trecho da estrada tive uma daquelas sensações que só se tem nessas viagens: aquela apreensão natural que existe com relação às dificuldades que apareceriam no caminho havia passado totalmente. Estávamos agora naquele momento em que é longe demais para voltar atrás, e tarde demais para arrependimentos. Quando se viaja dessa forma, nos desprendemos cada vez mais das preocupações, medos, anseios… Chega um momento em que você está “zen”, independente do que estiver acontecendo ao seu redor, e você sabe que não precisa de mais nada no mundo para estar bem com a vida além de estar vivo. Apelidamos a transição para esse estado mental de “ligar o fod*s”. E funciona. Como funciona. Uma sensação fantástica, por assim dizer.

Faz o jóia aí faz...

Faz o jóia aí faz…

No caminho, pouco depois de uma cidadezinha chamada Porto Grande (que de grande não tinha nada…) a moto do Haroldo pára por falta de combustível. Isso não era de forma alguma um problema: sabíamos da falta da bomba de gasolina e levávamos galões reservas conosco. Eis que paramos para abastecer o Haroldo na beira da estrada, e algo chama a atenção… a lateral da moto estava coberta de manchas de óleo. Um exame rápido e descobrimos o problema.

Cinco dias antes, quando removemos a bomba de gasolina da drag, também tivemos que remendar a tampa do reservatório de óleo do motor: ao retirá-la para conferir o óleo, ela se partiu. Bom, a remenda com super bonder não foi tão boa, e a tampinha havia se partido novamente. Por nossa sorte, o Rui havia previsto que isso poderia acontecer e amarrou a tampinha com um arame no chassi da moto, o que fez com que ela ficasse pendurada ao invés de cair pela estrada.

Nossa opção era voltar para a pequena Porto Grande e arrumarmos uma oficina. Havia um problema: a drag precisava de um substituto da tampa no cárter para poder andar até lá. Começamos a procurar por plásticos, latas, rolhas, garrafas, galhos… galhos!

O Rui, jamais perdendo uma oportunidade de demonstrar seus infinitos poderes gambiarrísticos, saca um canivete e começa a serrar um galho, transformando-o primeiramente em um toco, e, após completada a cirurgia, surgiu o que ficaria conhecido desse dia em diante como: The Lucky Stick.

Realizando o sonho de todo menino de dar uma verdadeira utilidade para seu canivete.

Realizando o sonho de todo menino de dar uma verdadeira utilidade para seu canivete.

Tratava-se de um pequeno toco de madeira que se enroscava no lugar da tampa do cárter (sim, ele fez uma rosca) e na parte de cima era preso por braçadeiras em alças junto ao chassi da moto.

The Lucky Stick. Nas palavras do Rui: "Eu chamo isso de Engenharia de Guerra".

The Lucky Stick. Nas palavras do Rui: “Eu chamo isso de Engenharia de Guerra”.

Tudo pronto, partimos de volta para Porto Grande. O lucky stick não foi o único grande momento do dia. Estávamos prestes a descobrir uma característica peculiar do nosso amigo Haroldo.

Na volta para Porto Grande, o Haroldo estava maneirando bem na moto dele, para manter o motor em baixa rotação. Por isso, ele saiu na frente, enquanto eu e o Rui guardávamos as ferramentas, e logo depois o alcançamos. Quando ia passar por ele, uma cena inusitada: uma de suas luvas estava bem em cima do alforge da moto, sem presilhas nem nada, calmamente repousando lá e esperando ser levada pelo vento. Passei e fiz sinal para ele parar.

Dito e feito: o Haroldo esqueceu suas luvas sobre os alforges, e uma delas já havia caído. Como eu fazia vezes de batedor do grupo desde o primeiro dia, quando voltei um trecho para buscar gasolina, voltei na estrada procurando pela luva, enquanto o Haroldo e o Rui continuaram para Porto Grande. Era um trecho de aproximadamente 10km.

Um pouco de percepção e um pouco de sorte me fizeram achar a luva deixada para trás com uma certa facilidade. Peguei-a no acostamento e voei de volta para alcançar meus companheiros. Os passei quilômetros depois, paramos e entreguei a luva para o Haroldo. Continuamos.

Visão em primeira pessoa da XT.

Visão em primeira pessoa da XT.

Não muito depois, o Rui emparelha comigo e me faz uma pergunta, a qual eu não entendi. Depois de algumas tentativas ele chega realmente perto e grita com toda força: “Você pegou a tampinha???”. Dei de ombros, e corremos para parar o Haroldo. Ele pára e se surpreende com a pergunta: afinal, estávamos voltando justamente para remendar a tampa. Mas, uma busca rápida em sua memória revela que… a última vez que alguém havia visto a tampa do cárter, ela repousava no banco da drag star. E ninguém guardou-a depois disso.

Procuramos e constatamos que sim, a tampa provavelmente havia ficado pra trás. Como teríamos que resolver de um jeito ou de outro, combinamos que o Rui e o Haroldo continuariam para Porto Grande e achariam uma oficina, fosse para remendar a tampa ou para providenciar uma substituta. Eu iria novamente fazer o bate-volta para o ponto onde havíamos parado e tentaria contar novamente com a sorte.

Fui a todo vapor em direção ao local. Consegui reconhecer a estrada, e encontrei a bagunça que deixamos pra trás: galhos cortados, plásticos, latas. Desci da moto, e lá estava ela, ou elas: duas metades da tampa do cárter da drag star. Haviam caído logo ali onde a moto estava parada.

Novamente fiz bom uso do motor da moto para voltar em direção a Porto Grande. Cheguei lá, e Rui e Haroldo já haviam arrumado uma oficina: um borracheiro que consertava pneus e bicicletas. O senhor nos atendeu de prontidão, e fez um belo trabalho juntando as duas metades da tampa, dessa vez usando um parafuso e porca. Haroldo guardou o lucky stick de lembrança. Sábia decisão: tal ferramenta ainda viria a ser útil.

Montamos novamente e partimos. Mas esse era um daqueles dias em que Murphy não iria nos deixar chegar ao nosso destino, por mais que ele ficasse apenas a 360 km do ponto de partida.

Estávamos com um pequeno problema: a gasolina das motos não daria para chegar a Calçoene, e não havia sinal de postos no caminho. Passamos então por um trevo de onde saía uma estrada de terra, para onde apontava uma placa para um lugar chamado… “Amapá”.

Em direção a Amapá-AP.

Em direção a Amapá-AP.

A primeira vista a placa parecia estar errada, afinal estávamos dentro do Amapá, qual o sentido de uma placa para Amapá… pela nossa falta de opção, seguimos em direção ao local para buscar gasolina. Era nossa primeira incursão em uma estrada de terra, e era a hora do Haroldo provar que o treinamento havia dado certo. É, ele já havia botado a drag na terra, antes da viagem, já vislumbrando o que viria pela frente.

Foi um sucesso. O Haroldo se saiu muito bem com a drag na terra. Enquanto isso, o Rui com a XT parecia uma criança do pré-primário na hora do recreio: estava no seu habitat natural.

Chegamos ao município de Amapá. Uma minúscula cidade de 7000 habitantes, que descobrirmos ser o primeiro município do estado. Pelo menos é o que contam os habitantes.

Como daria tempo de abastecer em Amapá e chegar a Calçoene, Murphy teve que interferir em nossa sorte mais uma vez. A cidade inteira estava sem energia, o que significava que nenhum posto poderia nos atender. O Haroldo até mesmo tentou ajuda com a polícia local, mas em vão. As horas passando, e estava decidido, Murphy venceu. Ficaríamos no município, partindo no dia seguinte direto a Oiapoque.

Já tinha sido um dia e tanto para nós, mas as surpresas continuaram. Nos hospedamos em uma pousada, na qual pudemos requisitar um quarto com duas camas e uma rede. Ao sair, fomos abordados por um caminhoneiro que estava por lá, que começou um papo sobre estradas e viagens. O intrigante é que o cidadão era italiano, morador do pequeno município. O simpático senhor ainda brincava: “Aqui todo mundo me conhece, é fácil me achar. Basta perguntar pelo italiano mais bonito de Amapá”, dizia.

Fomos a uma praça local para jantar e terminar o dia. No dia seguinte, seguiríamos para o maior destino de nossa viagem.

Anúncios

From → Oiapoque

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: