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Oiapoque – 11º Dia – Amapá – Oiapoque

04/09/2012

Acordamos, tomamos café e saímos lá pelas 10h. Já havia voltado a eletricidade na cidade desde a noite anterior, e por isso pudemos abastecer antes de sair para o ponto alto de nossa viagem.

Ida tranquila de Amapá a Calçoene, última cidade do trajeto onde chega o asfalto. A partir dali, seriam 200 km de terra até Oiapoque. Naquele ponto, já estávamos mais tranquilos quanto ao trecho, pois o caminhoneiro italiano que encontramos no dia anterior havia nos tranquilizado dizendo que a estrada estava “boa”, já que estávamos no verão, estação na qual chove todo dia (no inverno chove o dia todo).

Paramos em um posto na beira da estrada logo antes do início da estrada de terra. Lá, abastecemos as motos e os galões, e fomos a um barraco que fazia vezes de lanchonete para comprar água. E para nossa sorte, lá conhecemos uma pessoa notável, como tantas vezes já ocorreu em nossas andanças. É um fato que, se algumas pessoas nos acham “loucos aventureiros” por fazermos essas viagens de moto, nós não chegamos nem perto dos verdadeiros andarilhos que existem por aí nesse mundo. Já encontramos vários desses espalhados por essas estradas, e esse era mais um que merecia aplausos.

Entramos na pequena lanchonete, onde fomos atendidos por um balconista barbudo. De início não notamos nada de incomum. Percebemos uma bicicleta encostada ao lado do barraco, que chamava atenção por possuir grandes alforges de moto afivelados a ela, mais uma bagagem presa à frente, e uma bandeira do Brasil. Um pouco de curiosidade e o balconista veio a nosso encontro. Disse que a bicicleta era dele e iniciou uma história digna de recordes, literalmente.

Uma bicicleta, um ciclista, e o resto do mundo.

Uma bicicleta, um ciclista, e o resto do mundo.

O nome do cidadão era Juarez. Era um carioca que vivia rodando o mundo de bicicleta, literalmente. Havia 12 anos que o sujeito estava andando com sua bike, já havia atravessado vários países da América Latina e estava subindo em direção ao Oiapoque para entrar na Guiana Francesa e continuar sua viagem. Estava ali naquela lanchonete para ganhar uns trocados para sobreviver mais alguns dias, comprar pneus novos e poder continuar suas pedaladas.

Mas a história não acaba por aí. O humilde Juarez era ambicioso: seu projeto era entrar para o Guiness como a pessoa que mais conheceu cidades no mundo. Para isso, carregava nos alforges de sua bicicleta grossas pastas com documentos comprovando cada cidade por onde havia passado. Já eram mais de 4000. Claro que não pudemos ficar de fora dessa incrível aventura: arrumamos papel e caneta e demos ao Juarez nossa colaboração para seus registros.

Rumo ao Guinness, com o nosso apoio.

Rumo ao Guinness, com o nosso apoio.

Além dessa simbólica participação, também colaboramos com o caixa do amigo aventureiro. Cada um de nós sacou 50 reais e entregou, o que fez com que ele fizesse aquela cara de “tirei a sorte grande”. Nosso presente parece que foi bem útil: na volta do Oiapoque, Juarez já não se encontrava mais no bar, sinal que já havia continuado suas andanças.

Por curiosidade, pesquisei sobre ele enquanto escrevia esse post, e constatei que continua com suas aventuras ciclísticas pelo mundo: http://www.cidadeverde.com/ciclista-que-viajou-todo-o-brasil-esta-em-teresina-ate-esta-terca-101666

Nossa histórica despedida do homem que mais conhecerá cidades no mundo.

Nossa histórica despedida do homem que mais conhecerá cidades no mundo.

Saímos do posto e iniciamos nossa jornada pela até então temida estrada Calçoene – Oiapoque. Realmente estava melhor que esperávamos. Novamente o Rui estava em seu terreno preferido, e demonstrava isso com largas esticadas na XT. Eu me virava bem com a Buell, e o Haroldo, surpreendentemente, fazia a Drag Star comer terra (no bom sentido) com um rendimento surpreendente para uma custom. Tá certo que em alguns buracos o Haroldo era jogado do banco com a pancada, mas no geral estava indo muito bem.

Mesma foto, outra estrada.

Mesma foto, outra estrada.

Paramos para um almoço em uma vila a beira da estrada. Seria o último ponto de civilização moderna até a cidade de Oiapoque. Dali pra frente, com exceção da própria estrada, tudo o que se via pertencia a reservas indígenas. De fato, foi possível avistar ocas e outras pequenas construções de madeira em alguns pontos.

A XT tava em casa...

A XT tava em casa…

... e a Drag, no inferno !

… e a Drag, no inferno !

E a estrada começava a trazer algumas surpresas. Alguns trechos em reforma e outros particularmente molhados deixavam o chão liso e escorregadio, o que nos fez seguir com cautela. Felizmente, ninguém havia comprado terreno por ali. Ainda…

Em compensação, pudemos ver algumas legítimas paisagens amazônicas de tirar o fôlego.

Isso me lembra LOST.

Isso me lembra LOST.

Também era possível avistar placas não muito amigáveis, colocadas ali para proteger nossos amigos indígenas.

Rui: "Num programão de indio desse, a gente ta autorizado !"

Rui: “Num programão de indio desse, a gente ta autorizado !”

Continuando o caminho, pegamos uma das famosas chuvas torrenciais amazônicas. A estrada molhou bastante e foi ficando cada vez mais escorregadia, e resolvemos parar para esperar a chuva dar uma aliviada. Como não havia outra opção, paramos em uma tribo indígena.

Pedindo abrigo aos indígenas.

Pedindo abrigo aos indígenas.

Na verdade nós paramos em uma escola infantil para índios. Depois de nos abrigarmos debaixo das palhas de uma “sala de aula”, vimos os nativos nos olhando da casa em frente. Um pouco apreensivos, conversamos com eles e pra nosso alívio eram bem amistosos e pudemos contar com sua hospitalidade.

O cara tava adorando tomar chuva. Vai gostar de ser índio assim.

O cara tava adorando tomar chuva. Vai gostar de ser índio assim.

A chuva não demorou muito a passar, como sempre são as chuvas dessa época do ano. Despedimos dos nossos anfitriões e seguimos viagem.

Os primeiros brasileiros.

Os primeiros brasileiros.

Seguimos viagem e fomos parando mais algumas vezes para fotos. Em uma dessas paradas, reparei que havia algo faltando na moto do Haroldo… faltava assim um certo pacote preto na frente de sua moto… O cara me sai da tribo onde estávamos e esquece a mala de tanque da moto dele, onde dentro havia nada menos que um iPad. Sim, a mala de tanque, que vai ali, bem na frente dele. Eu diria que foi uma bela forma de colaborar com a alfabetização dos indiozinhos.

Numa dessas paradas para fotos, percebemos a falta do iPad, e corremos para salvar os índios de um processo por copyright.

Numa dessas paradas para fotos, percebemos a falta do iPad, e corremos para salvar os índios de um processo por copyright.

Como ali naquele ambiente o Rui é quem estava em casa, ele voltou para buscar o iPad, enquanto eu e Haroldo seguíamos. Fomos adiante e, para nossa surpresa, chegamos no asfalto! Havia asfalto no final da estrada para Oiapoque. Paramos e esperamos o Rui, que nos alcançou minutos depois. Continuamos em direção ao fim do Brasil (ou início, dependendo do ponto de vista).

CHEGAMOS! Finalmente! Quase 4000 km depois, chegamos ao destino máximo da nossa aventura. Depois de muito chão, asfalto, terra, calor, umidade, chuva, terra e água, estávamos ali, no extremo norte do país, 500 km acima da linha do Equador. Era uma alegria só. Mais um desafio superado, mais uma conquista.

Oiapoque! Somos Nozes!

Oiapoque! Somos Nozes!

Seguimos para o centro da cidade. No caminho, paramos na unidade da polícia federal de Oiapoque. Queríamos saber se existia a possibilidade de entrarmos na Guiana Francesa. Antes da viagem, pesquisamos sobre a guiana e descobrimos que, ao contrário da própria França, entrar na Guiana era exigia uma burocracia gigantesca. Acabamos desistindo de fazer o processo oficial, mas já que estávamos tão perto, fomos procurar por alternativas… na polícia.

O Haroldo se prontificou a falar com seus companheiros de profissão. Fomos atendidos, e chamaram um agente para conversar conosco, agente esse que trabalhava na guiana em conjunto com a polícia de lá e poderia nos informar melhor. Explicamos nossa história, três motociclistas mineiros de belzonte que queriam aproveitar a ida ao Oiapoque para conhecer a guiana francesa, no que se seguiu o dialógo:

PF: “As motos sem chance, deixa elas em um hotel aí. Vocês tem passaporte?”

PDF-MC: “Não.”

PF:”Falam francês?”

PDF-MC: “Não.”

PF:”Então não vai lá não. Vocês vão caçar confusão, ser presos, deportados, não vale a pena.”

Nosso ânimo desabou, seria uma pena não visitar a guiana. Nisso, o Haroldo resolve comentar que era colega de profissão do sujeito…

PF:”Você é polícia?”

Haroldo:”Sou.”

PF:”Deixa eu ver sua carteira.”

Haroldo entrega a carteira para o cara. Ele fica olhando pra ela uns 10 segundos, pensativo, e depois devolve, respondendo:

PF: “Hmm… vai… vai lá. Com essa carteira aí você vai. Se alguém chegar, diz que é policial, que tá de visita, já tá indo embora, e etc.”, e foi nos explicando como dar umas desculpas em francês para nos livrarmos de uma possível abordagem da polícia de fronteira francesa.

Estava resolvido, iríamos para a guiana no dia seguinte. Fomos então procurar um hotel na cidade. Encontramos um onde estavam estacionados em frente alguns carros da polícia de fronteira do Brasil. Parecia um local seguro. Entramos e pedimos um quarto. A recepcionista fez nossas fichas e nos levou para o subsolo.

O marco do início do Brasil.

O marco do início do Brasil.

O quarto era basicamente um calabouço. Um cubículo com três camas apertadas, um banheiro minúsculo e sem janela. Mas, não seria a pior hospedagem onde já dormimos por aí.

Fomos a um restaurante de aparência bacana para jantarmos. Lá, para nossa surpresa, encontramos com o Cecy, mesmo companheiro que conhecemos em Macapá, e mais dois integrantes dos Tigres do Asfalto, Bolão e Zé Carlos. Sentamos na mesma mesa e tivemos umas boas horas de papo de viagens, motos e aventuras. Descobrimos que o Zé Carlos era aventureiro calejado, já tendo viajado de moto em vários países do mundo.

Comentamos sobre a guiana, e eles também tentariam entrar. Iriam logo cedo pela manhã. Nós iríamos tentar depois do almoço, a tarde. Pegamos os contatos deles, e o Zé Carlos, que ainda morava em Belém na época, disse que poderíamos contar com ele caso precisássemos de ajuda durante a volta. O que foi uma grande sorte nossa, como descobrimos depois!

Despedimos dos Tigres do Asfalto e fomos repousar em nosso pequeno calabouço. Iríamos acordar tarde no dia seguinte, ansiosos para sermos imigrantes ilegais.

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