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Oiapoque – 16º Dia – Belém

30/10/2012

Acordamos bem cedo, para um dos dias mais longos da viagem, e um dos melhores! Esse seria um daqueles dias em que vemos que não é preciso ter medo de viajar: onde houver um viajante em necessidade, haverá alguém disposto a ajudá-lo!

O barco tinha previsão de chegar a Belém às 8h da manhã. Nosso planejamento era desembarcar e ir direto ao encontro do Zé Carlos, o companheiro que encontramos em Macapá e Oiapoque. Como ele morava em Belém, o Haroldo combinou de enviar a nova bomba de gasolina para a casa dele. De lá, iríamos para uma concessionária Yamaha trocar óleo e filtro da XT e da Dragstar, além de fazer a troca da bomba.

Chegamos, atracamos, desembarcamos. O trabalho de desembarcar as motos e montar as bagagens no sol escaldante ainda era difícil, mas pelo menos dessa vez não estávamos em uma frigideira gigante como em Macapá. Ligamos para o Zé Carlos, que combinou de nos encontrar próximo a um mercado de peixes.

Zé Carlos não tarda a aparecer e, além de entregar o pacote dos correios com a bomba de gasolina do Haroldo, se oferece para nos levar a uma concessionária Yamaha. O seguimos, e lá, enquanto dávamos entrada nos serviços, trocamos uma ideia com ele, e ouvimos um pouco de sua história.

O homem era Beolzontino como nós, mas morava em Belém há alguns anos já. Era sócio de uma empresa que abriu uma filial em Belém, e assumiu as operações no norte. Coincidência ou não, nesse exato dia que encontramos, haveria um churrasco de despedida para o Zé Carlos: ele estava de malas prontas para voltar a BH. Iria deixar a filial, agora já autônoma, nas mãos de um gerente, e voltaria para sua cidade natal com missão cumprida. O churrasco era uma homenagem dos funcionários para o empresário, que era querido entre eles. Obviamente o Zé nos convidou para o churrasco, disse para ficarmos em Belém um dia, que poderíamos ficar na casa dele. Como era muito cedo e não queríamos perder o dia de viagem, agradecemos muito, mas preferimos recusar. Iríamos arrumar as motos e partir o mais rápido possível para o sul.

Porém, como em tantas outras ocasiões, Murphy antecedeu em nosso destino mais uma vez. Ele só não devia saber que o resultado seria um dia incrível de hospitalidade do norte.

Na oficina, as coisas não estavam muito boas. Não me recordo bem, mas o serviço da troca da bomba do Haroldo não poderia ser feito lá, não me recordo se por preço, tempo ou falta de capacidade dos caras. Acabou que só trocaram óleo e filtro por lá. A gente deveria ter saído da concessionária assim, quase do mesmo jeito que entrou, só que o espertão aqui resolveu dar uma conferida na Buell.

A Buell tem um parafuso crítico que segura o sub-chassi da moto no chassi. Esse parafuso tem um defeito crônico e quebra de tempos em tempos.  Aproveitei o tempo livre e fui conferir o dito cujo. Apesar de não estar quebrado, parecia estar empenado, pronto pra quebrar. Nada melhor do que retirá-lo e colocar um novo… eu só não contava com o fato de que, ao tentar retirá-lo, devido ao empeno, ele quebrou… metade pra fora, metade pra dentro!

Agora sim tínhamos um problema. Era possível andar com a Buell sem esse parafuso, só não podia fazer isso por milhares de quilômetros, correndo o risco de quebrar os demais por esforço excessivo. A bomba do Haroldo também não havia sido instalada. Solução… ligamos para o Zé Carlos! Precisávamos de um local pra trabalhar, para retirar a metade do parafuso que ficou na Buell e instalar a bomba de gasolina da Dragstar, e ele disse para que fôssemos à casa onde estava acontecendo o tal churrasco, que poderíamos usar a garagem. Antes disso, era preciso conseguir um parafuso allen com medidas em polegadas… rodei por quase uma hora em Belém, debaixo de sol, fazendo 40 graus na sombra, no meio do trânsito, pulando de loja em loja atrás do maldito parafuso. Quando finalmente encontrado, voltei para a concessionária, onde encontrei com o Rui e o Haroldo já com as motos prontas para sair depois da troca de óleo. Partimos em direção ao endereço que o Zé Carlos nos passou.

Chegamos em uma casa simples, alugada especificamente para o evento, em uma vizinhança igualmente simples. Batemos na porta, e uma pessoa nos atendeu. Já estava avisado da nossa vinda e nos deixou entrar. Entramos, e vimos ao fundo uma festa acontecendo: churrasco, cerveja e gente animada. Zé Carlos prontamente nos apresentou como “meus amigos de Belo Horizonte”, como se fizesse anos que nos conhecesse. Rapidamente nos entrosamos. Havia algumas duchas no local, e insistiram para que fôssemos tomar um banho frio pra dar uma aliviada no calor. Tomamos a ducha, almoçamos, tomamos cerveja. Nos fizeram ficar a vontade.

A casa onde ocorria a festa, ao fundo.

A casa onde ocorria a festa, ao fundo.

Depois da recepção, era de hora de trabalhar! Haroldo e Rui foram desmontando a Drag, e o Zé Carlos me levou em uma loja de ferramentas. Eu precisava comprar broca para usar no parafuso. O processo de retirar um parafuso preso envolve fazer um furo no meio dele, e logo em seguida usar um outro parafuso para retirá-lo, ou usar um extrator de parafuso, que nada mais é do que uma peça cônica com uma rosca invertida. Comprei um pequeno kit de brocas comuns.

Enquanto eu comprava ferramentas, Haroldo desmontava a Drag!

Enquanto eu comprava ferramentas, Haroldo desmontava a Drag!

Nesse meio tempo, conversando com o Zé Carlos no trajeto, descobri uma daquelas surpresas que as coincidências da vida gostam de nos revelar. Falando de viagens e motos, descubro que o Zé Carlos havia passado, de moto, por nada menos que 47 países diferentes! Era companheiro recorrente do Rodrigo Fiúza, aventureiro da paz que faz inúmeras expedições pelo mundo, e de acordo com ele boa parte das fotos do Fiúza eram de autoria dele. Imediatamente virei fã de carteirinha do homem! Como pode o Brasil ser tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno, para proporcionar um encontro desses.

Voltando ao churrasco, mostrei minhas compras pro Rui, que imediatamente desaprovou as brocas. Achava que não iriam aguentar furar o parafuso. Estava inteiramente certo. As primeiras tentativas foram bastante frustrantes: usando uma furadeira emprestada pelos nossos anfitriões, as brocas se desgastavam e quebravam. Anfitriões, inclusive, que faziam questão de aparecer de tempos em tempos na garagem para verificar se precisávamos de alguma coisa, fosse comida, bebida ou qualquer outro tipo de ajuda.

As broas iam quebrando uma a uma...

As brocas iam quebrando uma a uma…

Depois de algumas tentativas, percebemos que as brocas realmente não serviriam. Nesse meio tempo a Drag estava montada e com sua nova bomba de gasolina funcionando. Para testá-la, nada melhor do que ir novamente na tal loja de ferramentas, antes que fechasse, para comprar brocas adequadas ao serviço (brocas de aço rápido). Fomos eu e o Rui na Drag, e lá comprei a tal broca, além de um kit de extratores de parafuso. Já tinha percebido que era preciso as ferramentas corretas para o serviço.

Tentando furar o maldito parafuso.

Tentando furar o maldito parafuso.

Voltando ao churrasco, conseguimos finalmente furar o parafuso com a broca correta. Logo em seguida, usei o extrator e voilà! Parafuso retirado! Depois das comemorações, bastou colocar o parafuso novo e a Buell estava pronta para continuar a viagem.

Vitória !

Vitória !

Continuamos no lugar e mais ao fim da festa presenciamos uma cena inesquecível. Os funcionários do Zé Carlos se reuniram em uma roda, com ele no meio, e começaram, um a um, a fazer homenagens a ele. Cada um havia preparado um pequeno discurso para o ex-chefe, e pelo que ouvimos, todos estavam sentindo muito sua partida. Foi um momento emocionante, especialmente para o Zé Carlos, que não tardou a mostrar seu agradecimento aos presentes em forma de sinceras lágrimas de alegria. Todos o aplaudiram calorosamente, inclusive nós. Apesar de o conhecermos a pouco tempo, sabíamos que ali estava alguém bastante querido por todos em sua volta, inclusive pelo três viajantes que haviam acabado de receber sua impressionante hospitalidade!

Zé Carlos, o segundo ao fundo da esquerda pra direita, recebendo as homenagens.

Zé Carlos, o segundo ao fundo da esquerda pra direita, recebendo as homenagens.

Passado o emocionante momento, era hora de deixar o lugar, mas não sem antes recebermos um convite de um dos presentes para uma recepção em sua casa! O belemense, que me perdoe não recordo o nome, fazia questão que a festa continuasse em sua humilde residência. Bom, antes disso precisávamos arrumar abrigo para nós e as motos, um convite que veio rápido: ficaríamos no apartamento do Zé Carlos. Saímos da festa e fomos ao apartamento deixar as motos e tomar um banho.

Saímos com o Zé Carlos de carro e fomos experimentar a hospitalidade do nosso próximo anfitrião. Chegamos a uma casa simples e humilde, que nos recebeu imensamente bem! Tomamos da cerveja que havia sobrado do churrasco, conhecemos os familiares do sujeito, comemos peixe, jogamos conversa fora. Por fim, saímos de lá agradecendo muito. Mas a noite ainda não havia terminado.

Experimentando mais uma vez a hospitalidade do norte!

Experimentando mais uma vez a hospitalidade do norte!

O Zé Carlos fez questão de nos levar para conhecer mais da noite de Belém. Fomos a um bairro boêmio, que lembra um pouco da nossa Savassi, com inúmeros bares, a maioria lotados. Era noite de UFC, e esse esporte é febre por lá. Sentamos em um agradável estabelecimento, comemos, bebemos, conversamos muito e assistimos às lutas. Estávamos tão a vontade e tão bem recebidos que o Zé já parecia um amigo nosso de longa data.  Saímos do bar em direção ao apartamento, a fim de descansar para continuar nossa jornada no dia seguinte.

Curtindo UFC na noite de Belém.

Curtindo UFC na noite de Belém.

A maior parte das vezes, quando temos problemas mecânicos e precisamos ficar parados, consideramos que foi um dia “perdido” de viagem. Esse, porém, foi um dos dias que consistem uma exceção a essa regra. Um dia pelo qual valeu cada parafuso, esforço e suor despendidos, que nos permitiu compartilhar nossas histórias e conhecer uma daquelas pessoas que acabam se tornando nossos ídolos pelo resto da vida.

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2 Comentários
  1. Show de relatos…
    Vi sobre o blog no Fórum BMWF800GS e gostei muito.
    Já adicionei nos meus favoritos, vou aguardar os próximos capítulos. 😉

  2. Rodrigo Ramos - Varginha/MG permalink

    Parabéns ao grupo. Que aventura incrível! Não deixem de postar mais viagens.

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